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quinta-feira, 12 de maio de 2016

alimentarei a fogueira que você me preparou.
atirarei ao fogo meu sangue, meus feitiços, meu gritos, meus medos, meu vinho.
resistirei como uma ideia 
resistirei porque sou uma alma que é infinita e indivisível e que também é fogo
sobrará em mim a verdade e meus dentes para que eu possa sorrir e mastigar o medo
e serei desses solos que ficam férteis depois da queimada, porque comerei minhas próprias cinzas e assim crescerei 

terça-feira, 3 de maio de 2016

não sei o dia exato que você foi embora. acho que foi um processo lento, a cada hora um pedacinho bem pequeno seu partia.
nunca recebi uma despedida brusca. quando eu percebi, sua ausência se mostrou comigo, seu lugar vago ainda morno.
nesse dia incerto de ir embora nenhum satélite parou. nenhum pássaro morreu por isso. a chuva não caiu diferente. as coisas do céu permaneceram no céu. as coisas do chão ainda eram as coisas do chão.
eu permaneci acima do chão. nunca fui um castelo de cartas como nós talvez pensássemos, porque o vento bateu forte e eu permaneci.
eu te amo.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

eu queria saber se o mar sabe de si próprio.
se eu fosse o mar, escreveria, com pequenas ondas, poesias sobre os seres que vivem em mim. descreveria a sensação de envolver as pessoas, roubar a temperatura de seus corpos. saberia que sou grande e assustador e devoraria embarcações lotadas, mas por amor.
rugiria como a ferocidade pura e líquida que sou. rugiria a noite inteira. me atiraria contra as pedras com uma violência doce. e seria o útero das sereias. seria o chão das gaivotas.
talvez não soubesse, mas sentiria que inspiro e acalmo.
eu saberia, se fosse o mar, que as lágrimas das pessoas são pequenas células de mim.
você me lê?
ontem li que a vida é um sonho e por um décimo de um milionésimo de um micro segundo, acordei.
foi um momento tão pequeno que nem deu tempo de nascer em mim a vontade de segurá-lo. tão pequeno que nem sei se foi real.
foi minha vida, essa vida, condensada.
risquei meus braços para que não me esquecesse VOCÊ ESTÁ SONHANDO
mas esqueci, e estou esquecida ainda agora.
deus me lê?

domingo, 1 de maio de 2016

29 de abril de 2016

Essa sou eu, com 20 anos. É fim de abril de 2016.
Esse é meu rosto sem maquiagem, sem correção digital e talvez um pouco de ângulo que favorece. Esse é meu cabelo sem progressiva, chapinha, escova. Não estou nua porque está muito frio. Estou suja. No meu quarto, na casa dos meus pais. Tenho andado infeliz com o meu corpo. Desconectada de mim. Cozinho muito bem e cada vez melhor. Sinto-me sozinha. Alimento sentimentos ruins por outras pessoas. Estou apaixonada pelo mesmo cara e insegura em relação a isso.
Essa sou eu, com 20 anos. Eu fui presa por roubar um livro e tenho medo que meus pais descubram. Tenho dado menos voz à minha sensibilidade (ou a tenho perdido). Sinto inveja. Sinto saudades de quem eu achava que era. Crio projeções mais do que nunca. Sou desorganizada. Não encontro emprego. As vezes sinto que vou explodir. Culpo as pessoas por coisas que eu me inflijo. Perdi amigos.
Essa sou eu, com 20 anos. Minha avó morreu no começo do mês, e eu fiquei mais triste do que achei que ficaria. Tenho medo da velhice. Tenho mil vacinas atrasadas para dar na minha gata. Ela também toma menos banhos do que deveria. Minha relação com os meus pais é pesada e me fez buscar terapia. Sinto-me torta. Gosto muito de mim. Identifico-me com isso. Gasto meu dinheiro em comida e futilidades. Em mim tem muito amor e ele cresce.

Essa sou eu, com 20 anos. Eu não sinto que conseguir cuspir sinceridade. Esses são alguns dos meus problemas de intimidade. Essa sou eu tentando me expor.