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quinta-feira, 12 de julho de 2018

não consigo parar de dizer sobre você.
você que me fez ver as coisas de um jeito que eu não teria visto
sua falta de estrada rodada
minha boca controlada pra não rir das suas bobagens
sua mãe me oferecendo frutas, sua irmã não te deixando ir acampar (desconfio que eles me achem quase uma influência ruim)
e tua habilidade de me fazer ter 16 anos de novo, e tua habilidade com as pessoas, e tua habilidade em ser doce quando tudo em mim é turvo e rude
(essas coisas que eu escrevo eu nunca vou te mostrar)
talvez você não exista, seja produto puro contaminado da minha projeção - você colchão macio onde as pessoas se atiram
me ignorando
e eu forçando minha cabeça até que doa um pouco, e eu fumando maconha e inventando histórias até que doa um pouco, e eu distribuindo meu afeto entre outras pessoas até que...
as vezes penso que está tudo errado.
preciso confessar que estou um pouco louca com isso tudo (você pensaria: isso tudo o que?) porque fazia muito tempo que eu tinha a capacidade de controlar quem entraria em mim e quem não entraria. não tenho certeza do momento que te deixei entrar mas escancarei minhas janelas, portas e bandeiras, e você ocupa a sala, os dias, e me sinto inapropriada como quem acaba de ouvir um desabafo muito sério e não sabe o que dizer.

sábado, 7 de julho de 2018

lembro da minha gigante coleção de ossos, tirados de todos os lugares
ossos de pássaros, de peixes
e você, querendo imprimir em mim o tipo de lava que existe em você,
- nunca com palavras porque você gostava de manusear as coisas que existem no ar - quebrou-os tanto 
e os vizinhos viram uma farinha de ossos caírem oito andares, sujando uma janela de cada vez.
essas suas ideias sempre causam um tipo de suspensão de alguma coisa
pra mim a farinha ficou suspensa por dias
os pedacinhos maiores lá embaixo, na calçada, pedacinhos de estrutura de corpo
não apenas de um animal mas de vários
e uma coisa dentro de mim suspensa, uma coisa muito sútil como uma fumaça parada no ar
o tempo um pouco parado



. .,      .    . ...

domingo, 1 de julho de 2018

em mim habita uma coisa antiga que quer sair
e ela não se importaria se tivesse que rasgar minha garganta ou peito. eu preferiria que ela fizesse; saísse com violência, sem usar os caminhos usuais do corpo
mas ela é paciente essa coisa
ela assiste minhas tentativas de deixá-la sair pelos olhos e reconhece meu esforço
mesmo eu sabendo que ela é grande demais e nunca seria tão fácil.
em dias de lua cheia é pior
é como se eu fosse sempre um bicho grávido, quase parindo
e a coisa se revira em mim como os bebês se reviram na hora de nascer,
mas ela nunca nasce
(na cidade as vezes penso que vi a lua
mas quando olho direito é um poste ou uma placa do burguer king).
essa coisa antiga é muito sincera e crua. ela deve ser feita de terra e carne e pulsar de um jeito brusco, com uns olhos imensos que olham sempre (esses olhos eu sinto no fundo de tudo).
se eu ficar bem quieta, ouço dentro aqui
ela não fala
tem um som estridente de silêncio e gargalhada
eu queria poder tirar minha pele como quem tira uma fantasia
e deixar a coisa existir.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

ontem você perguntou o que eu estava pensando
imagino que sua curiosidade pequena abarque as vezes meu silêncio 
e eu quis perguntar se você sentia a sutileza da vida
se você achava engraçada ou assustadora ou os dois.
perguntei mentalmente se você também sente que é tão imenso viver não sabendo do segundo seguinte
não sabendo se um avião despencará do céu em cima da cama
se nossos corações ainda estarão inteiros bombeando bombeando
não sabendo se uma pessoa na china vai apertar um botão que explodirá o mundo
não sabendo se eu vou levantar abruptamente a cabeça do seu colo e te dar um beijo
não sabendo
e enquanto eu te falava isso mentalmente você perguntou "o que nós vamos fazer agora?"
o que nós vamos fazer agora meu deus
se isso é a vida, abrupta engraçada assustadora 
cheia de segundos seguintes, como é que alguém poderia responder isso?
disse "não sei" e foi muito sincero.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Deslizo
na incerteza, na inverdade 
escapo
Esticando o corpo tento alcançar o que fui
Deslizo na dúvida e no medo mas sei que habito no amor
sei e sinto
Cozinho coisas, tomo cerveja, faço sexo e limpo a casa quase sempre esquecida de mim
Mas me preocupo muito pouco e raramente
porque não tenho fim
porque estou, 
sei e sinto.