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terça-feira, 23 de maio de 2017

eu não espero a doçura da surpresa. não espero abrir a janela a noite e encontrar a lua cheia, morna, em um signo de ar. não espero chuva em dias secos, pé de amora no caminho, convites pra tomar chá. 
gostaria de não mentir.
tanto faz pra mim quem buzina no meu portão, sem avisar que vinha, trazendo uma novidade e o escorregadio susto dos dias. quem me liga urgente pra falar que viu um cachorro engraçado. quem diz por mensagem "vem aqui, vamos fazer alguma extravagância juntos."
pra mim tanto faz essas pessoas quanto quem qualquer coisa. a falta de curiosidade ou ardência de vida, tanto faz.
eu não quero a doçura da surpresa.
(gostaria de não mentir e estar satisfeita só com o pulso presente - mas estou trabalhando nisso.)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Gabi sentia as coisas e depois ficava na dúvida se podia ter sentido aquilo. Parece que se equilibrava na situação desconfortável de ser interrompida no meio de um espreguiçar. 
Percebia a cabeça difícil as vezes.
Passou a tarde preparando os músculos para receber outra pessoa, que viria no fim do dia. Imaginou ele aparecendo quando o sol estivesse fosco, a luz morna, um poste aceso aqui e ali. Imaginou ele trazendo seu cheiro característico largo e aceso, se esparramando em cima dela, mordendo-a, delicado e um pouco abrupto. Gabi era uma folha verde pousada na água, suave, contente da espera.
E contente da chegada que aconteceu mais noite do que ela esperava.
Como é injusto se apaixonar por homens. Como é injusto anular qualquer coisa selvagem que existe sem eles.
Gabi teve a ideia curta de boicotar todos os homens e manter seu corpo disponível apenas para mulheres.
Aí ele tocou sua bochecha com mãos gigantes, mãos quentes de homem, compridas, mãos que tocam, mãos que tocam sua vagina e lá estava ela pensando que o queria muito, lá estava ela invadida no peito por esse líquido pesado e quente que é querer outra pessoa. Gabi o queria muito.
Viu ele flertar com todas as mulheres dali, em jogos infantis de fingir desinteresse e receber risadas escandalosas das moças. Depois que as mulheres saíam, ele ia até Gabi e a beijava, quase num pedido de desculpas, ou numa busca por qualquer desagrado, ou ainda numa tentativa de dividir seu tempo e seu afeto entre todas.
E ela achava engraçado e levemente repulsivo. Você não é o único da minha vida, eu não posso ser a única do seu fim de tarde.
E pensou também que se ela estivesse apaixonada por uma mulher, vê-la flertar seria gracioso e excitante. Sem jogos ou dissimulações, apenas uma vontade pura e doce.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Levo meu tempo contigo como alguém que passeia, sem pressa, num caminho enfeitado com pedrinhas e cheio de coisas pra ver ao redor. Gosto da nossa comunicação feita de pele que raramente precisa do verbo.
Assim que você vai embora, entro imediatamente num estado de espera não-ansiosa, ou saio de um estado de suspensão do tempo - coisa estranha que você provoca.
(Das coisas que você provoca: uma espécie de confusão mental, uma sensação de que não te aproveitei o suficiente, um pequeno medo, um tesão absurdo.) 
Isso não é um bilhete. 

sábado, 8 de abril de 2017

partes minhas e tuas (estou escrevendo isso na sua casa enquanto você viaja)

começou quando nos reconhecemos. ouvi sua voz, senti teu cheiro, rimos juntos e suas raízes começaram a se afundar em mim. começou (e continuou sempre) com você sendo meu amigo.
depois, o desejo monstruoso, a fome da pele alheia. as noites infinitas de vinho e cerveja compartilhados e poemas compartilhados e lençóis compartilhados. meus fluidos por todo seu corpo. tuas marcas de dentes e unhas pelo meu. nós muito bêbados e muito chapados.
veio, depois disso, tudo que vem quando o pedestal desce e a projeção acaba. a clareza do amor sincero. conversas sóbrias. você cuidando de mim, eu te seguindo pela vida dura, você sendo vulnerável um pouco, eu escrevendo muito. nós sentindo ciúmes.
lembro quando veio o ciúmes. o incomodo velado por não ser a unica, eu ficando brava quando você não trocava o lençol. você doendo daquele viajante cearense por quem eu me apaixonei antes, doendo daquela guria libriana por quem eu me apaixonei várias vezes.
mas sempre a compreensão vinha. ainda vem. com a auto análise e os diálogos sinceros. (eu te amo).
aí, um dia, você me deu uma escova de dentes só minha que ficaria na sua casa.
.
criamos uma rotina que envolvia conversas desimportantes, netflix, cozinhar juntos, sexo bem feito, banho compartilhado, e eu quis que você fosse da minha vida sempre.
e quero. sem nada disso ou com tudo igual.
e então, aconteceu de você não ser mais o único, e distancias de virgulas se colocarem nos nossos dias. (e eu ainda te amo de amor bom).
ontem percebi que conheço todas as pintas das suas costas.

quarta-feira, 29 de março de 2017

12/03/2017

hoje você me perguntou como vão ser as coisas
nossas
e eu quis escrever um bilhete pra responder que vão ser assim, da minha parte, com escrita de bilhetes
com carinho na nuca enquanto você dirige
com besteiras adolescentes e talvez algumas vontades reprimidas
com dúvidas porque respeitarei o tempo das coisas, e o tempo das coisas nem sempre é claro
mas com delicadeza e beijos no meio do dia.