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sábado, 23 de setembro de 2017

23/09/2017, 20:58, sábado

essa sou eu, com 21 anos. esse é meu corpo de agora. eu tenho tatuagens, cicatrizes e sardas que não tinha ano passado. com 21 anos passei a ter chulé as vezes.
essa sou eu, com 21 anos. sinto meu corpo reclamar se como mal, se fico muito tempo parada ou se bebo demais. lembro dele se recuperar mais rápido antes. eu encontrei uma celulite na bunda e fiquei feliz. 
essa sou eu, com 21 anos. tenho superado algumas dificuldades sociais. tenho medo de intimidade. me apaixonei muitas vezes esse ano e me frustrei e fui enganada e me recuperei e vou me apaixonar de novo. tenho usado muitas drogas.
essa sou eu, com 21 anos. eu amo e estou feliz. eu me aceito hoje. me sinto responsável e tenho pouco tempo livre. aprendi a aplicar massagens e aplico. continuo gastando muito do meu dinheiro em comida, cerveja, incenso e maconha, mas agora também gasto em passagens de ônibus. 
essa sou eu, com 21 anos. eu estou desejando ter uma conversa sincera com os meus pais. dizer que gosto de mulheres, que acho que meu irmão precisa passar menos tempo na internet e que meu pai não pode ser tão rude com minha mãe. dizer que não quero ser rica nem abrir uma empresa, mas que quero viajar. 
essa sou eu, com 21 anos. eu sinto que não estou aproveitando a faculdade. no meu quarto tem pinturas inacabadas que comecei a mais de um ano, as telas cheias de poeira, abandonadas. eu começo a ler sete livros ao mesmo tempo e não termino nenhum. eu falo do meu irmão, mas gasto um tempo inaceitável de navegação aleatória na internet.
essa sou eu, com 21 anos. sou jovem, branca, classe média alta. não entendo nada do mundo adulto. piro muito com alienígenas e acho que eles são mestres espirituais. 
essa sou eu, com 21 anos, num sábado a noite, em casa, propositalmente sozinha, satisfeita, confusa um tanto, meu quarto está sujo, bem sujo, minha roupa sem dobrar, objetos acumulados para os quais não sei um fim apropriado. essa sou eu, hoje, com 21 anos. sinto que estou vagando e tudo bem.

domingo, 17 de setembro de 2017

eu queria parir palavras
que abarcassem um pouco da imensidão que sinto
arranco peles dos lábios quando estou aflita e hoje eles estão sangrando
acordei e permaneci com uma sensação parecida com o que a gente sente ao ouvir uma criança gritar de dor
um susto paralisante e ágil. como se chama?
essa noite tive mil tipos de pesadelos e acordei chorando
chorei acordada também, remoendo os sonhos
e fiquei feliz porque me percebi forte
eu sou uma mulher
forte
e entendo que o sofrimento é só uma frequência baixa na qual também precisamos vibrar 
o todo espera porque não há nenhum lugar a se chegar.
eu não caí. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sinto no meu corpo sua gargalhada profunda e sofro com essa falta de verdade
sofro te imaginando com facas na mão, cortando corpos
e sofro com sua necessidade de ser sempre dolorosamente maleável
e mesmo assim te quis cada centímetro.
Cada parte da sua boca e cada palavra dela, ditas num quase sotaque de não sei onde.
E cada parte de você que não é física eu quis também
quero ainda, até quando não entendo como pode ser que eu tenha tanta certeza de alguma coisa num momento, e assim que falamos sobre isso já não tenho mais
pegar fumaça com os dedos.
Eu não estava errada, tu valeu a minha queda.

domingo, 10 de setembro de 2017

sua boca, sua postura e seu jeito de ler um poema
o leão no seu ascendente 
e como ele sempre me impeliu a te assistir vivendo 
e o quanto foi difícil entender que minha vontade de você dorme numa terra preta 
talvez num canteiro, numa horta 
deitada e fria, como um cadáver.
te imagino lendo isso, e pensando nisso depois caminhando na rua
de cabeça baixa e mãos cruzadas nas costas, olhos que não olham nada.
lembro da minha intimidade com seu corpo, do seu nariz pequeno
e te amo com uma verdade tão profunda quanto a verdade que uso para entrar no mar
te amo limpa 
te amo além de toda minha incapacidade de amar o mundo
destino à ti um amor sobre o qual trabalharei pra destinar à tudo que existe
te amo de gratidão pura
e penso que matéria orgânica que já não vive mais posta sobre terra preta só pode se tornar adubo. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

assisto chover na tua casa, telhado de pombos
nas flores da entrada
mas não na sua irreconhecível cama, ela é quase árida 
capto alguns pensamentos boiando na superfície: nós esquecemos da beleza da qual somos feitos 
e eu sinto que contigo eu seria capaz de lembrar - e você também 
mas falamos palavras de mundo, na falta de outras melhores.
seu cheiro ocupa todo o espaço e lembro de pensar que eu poderia fazer uma rachadura na sua carapaça 
nunca pude.