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domingo, 2 de julho de 2017

resumo de mim

corpo de pele nova macia cor de pouco sol
e cabeça toda bagunçada de coisas acumuladas, não resolvidas, vincos antigos 
uma falta de prática na vida
ter se acostumado com os cantos (não de músicas, mas de paredes) 
saudade do mar que se retorce o ano todo
não ter preferidos nem ser a preferida de ninguém
uma identificação excruciante 
vez por mês morrer de dor e sangrar pela vagina (um sangue grosso e vermelho escuro, tão escuro, cor de substância que se criou dentro de alguém) 
só dormir tarde 
escrever coisas que ficarão semiescondidas 
as vezes ser fraca como bolha de sabão, fraca como um homem, frágil, sol de inverno, promessas de adolescência, frágil frágil, filhote de pássaro, medo, fraca
as vezes ser forte como uma onda de maré alta e lua cheia 
saber que o futuro ainda é grande. 

terça-feira, 13 de junho de 2017

dia 13

o ar da tarde foi como o ar de uma redoma limpa 
de céu nublado, alaranjado um pouco - e doce.
na minha cabeça zumbia uma felicidade estranha. uma felicidade que era quase um espaço vazio, preenchido de possibilidades
(todas as coisas tem uma capacidade implacável de surgirem, se modificarem ou pararem de existir). 
uma felicidade morna que era quase uma tristeza
pairava.
percebi que não faço a menor ideia do que estou fazendo
hoje choveu.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

as vezes confundo meu corpo com o mundo
não sei se meus braços são quilométricos 
se tenho pernas que andam ou pernas que são todas as partes.
confundo meu tempo, viro o que sempre existiu 
viro o que nem existe ainda - esqueço que um dia eu não era nascida.
minha língua fica doce como se nunca tivesse tocado água do mar
e minha boca inteira vira céu
e tropeço nas pausas, nos tempos marcados do relógio, em memórias alheias 
vejo tudo ao mesmo tempo
sinto o vento sem que esteja ventando e ouço os ruídos dos animais que estão a um continente inteiro de distância 
ouço-os rastejando na grama, correndo, se alimentando, parindo 
lembro do sangue (nunca esqueço o sangue, no fundo de tudo o farejo e o quero) 
os contornos do meu corpo se diluem, me espalho, existo
entendo
deixo que alguma coisa em mim gargalhe 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

uma não-sóbria imperfeita libriana sexta feira (noturna, porque o dia foi de terra)
se me achas racional demais, se me achas em qualquer lugar
eu sou onde e meu tempo é esse
não sei colocar ritmo porém acalento
não sei formar opiniões. minha teoria é observar de olhos doloridos de viver o dia
(estou cansada, mas forte. muito forte).
hoje recuso convites de toda ordem, em partes porque tenho um corpo dócil, mas principalmente porque sinto fome e estou tão bêbada ainda do ano passado.
não posso dizer que sinto muito. nem posso dizer que quero pontuar as linhas
revirar os olhos
deslizar em alguém
falar coisa com coisa
falar coisa com coisa não quero
hoje me apaixonei três vezes. vi duas pessoas num palco e me apaixonei por elas. um era bonito de boca morena, uma era desconhecida e tinha vários olhos. a outra foi mais cedo e ela me acertou linda como um soco na cara, mostrando um sorriso quilométrico. já os superei.
hoje tive uma longa conversa importante sentada sozinha num banco de um ônibus que leva as pessoas pra casa ou pra mais longe dela.
tracei meridianos.
vou tomar um banho e o cheiro de cigarros dos outros vai sair. tomar banho é ser eu mesma.

domingo, 28 de maio de 2017

Fazem longas semanas que não nos vemos.
Não sei como está sua barba, não sei como está seu sistema imunológico e não sei se você resolveu seus problemas. Não sei se você está feliz. Eu disse semanas mas parecem anos.
Ontem usei batom escuro mas você não soube. Tem um corte pequeno na minha bochecha que já deve estar curado amanhã, e você nunca saberá, a não ser que eu te conte (não vou). Tenho escrito no papel, e não no computador, quando é sobre você. Acho que quero que pareçam cartas (que serão sempre nunca-enviadas). Foi meu gato quem fez o corte. Meu gato que te fazia espirrar.
Não consigo mais evocar com absoluta clareza a memória do seu cheiro, como eu conseguia alguns dias anos atrás. Isso não quer dizer que eu pense menos em você.
Estou escrevendo isso no lugar onde tudo começou, com a caneta de um estranho que parece impaciente. O céu está bem cinza e me conforta saber que ele te cobre também.
Eu disse cinza, mas é um dia fatalmente azul. (acho que estou usando essa palavra do jeito errado).
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Hoje reparei que não importa como você se sente sobre mim. Pra ir mais fundo, hoje reparei que você, na verdade, nem existe. O que existe sou eu
minha cabeça
minha criação
e o olho que olha a mira.
Vou agora mesmo mandar uma mensagem dizendo que tenho saudades. Enviada.
Não, não tenho saudades de transar contigo. Não quero tocar sua boca com a minha. Não tenho carência de você; tenho saudades. Não da sua pele mas da sua presença, da sua palavra, das suas piadas.
Tu respondeu - está feliz e tem saudades também. É possível que tenha diminuído 1 cm das centenas de quilômetros e de décadas e de fatos entre nós?
Não importa porque você não existe. Essa pessoa para a qual eu escrevo, de quem eu lembro e em quem eu penso incessantemente não é uma pessoa que existe.
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Agora vou escrever sinceramente para o Você De Verdade: Quero tanto que você seja feliz. Tenho saudades de coisas que não aconteceram. Nós nunca nos olhamos de verdade. Eu serei vulnerável sempre que você quiser ou sempre que você não quiser. Eu nunca chorei por você, mas hoje eu vou. Vou chorar, mas não estou triste, estou feliz. Desejo coisas lindas para sua vida, tão lindas como a pessoa linda que você é.
Nunca mais vou escrever pra você, nem para o você que existe e nem para o você que não existe.
Talvez eu te envie isso, provavelmente não. Isso é uma despedida literária. Tchau.