Os Souza eram uma família perfeita. Ricos, mas decidiram viver de um jeito simples. O pai Roberto trabalhava de blazer esporte, chegava em casa às 4, ficava com os filhos, fazia academia aos domingos. A dona Ana era linda. Usava pouca maquiagem, passeava com a empregada, fazia o melhor bolo de cenoura do mundo e ocupava o cargo mais alto da empresa. As duas meninas já tinham sido chamadas pra trabalharem como modelos algumas vezes, Júlia passava a adolescência querendo ser bióloga e tocava teclado, Amanda cursava fisioterapia e era voluntária em um asilo. Felipe era o bebê mais inteligente e com os maiores olhos castanhos que eu já vi. Um dia Amanda acordou e se jogou da janela do décimo segundo andar.
A despedida foi deixada em batom vermelho no vidro, "Não acho que o mundo seja um bom lugar pra se viver, tampouco que eu seja digna de viver nele." e uma marca de beijo carimbada por lábios finos.
Amanda era infeliz? Tanto quanto eu e você e todo o resto das pessoas. Muito.
Seu erro foi ter cometido a infelicidade de perceber isso.
Felipe cresceu sem jamais ter ouvido falar na irmã, e em poucos anos, a família Souza voltou para a mais total felicidade bege de família perfeita. Com o tempo todos morreram de velhice.
Não, com o tempo todos apodreceram por serem felizes demais. Só Amanda teve a dignidade de brotar, calma, da janela do décimo segundo andar. E sorrindo.
terça-feira, 12 de abril de 2011
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Para a minha bailarina de porcelana
São 16:00h. Estou no banheiro chorando
de saudade
de alguém que ainda vai estar perto de mim por no mínimo mais 15 anos.
Ela está lá fora e eu escuto a risadinha fina que ela acabou de aprender, e o barulhinho leve do sapatinho vermelho batendo e dançando no assoalho.
Ela está fazendo três anos e eu fico me perguntando se todo aniversário dela eu vou chorar desse jeito, como se ela já estivesse saindo de casa.
É uma gentinha pequena de porcelana correndo e rindo vestida de bailarina com sapatos vermelhos, que quase parece pessoa de verdade, e que um dia vai crescer e sair de casa.
Não cresça, bebê. Seja bailarina pra sempre.
Feliz aniversário.
de saudade
de alguém que ainda vai estar perto de mim por no mínimo mais 15 anos.
Ela está lá fora e eu escuto a risadinha fina que ela acabou de aprender, e o barulhinho leve do sapatinho vermelho batendo e dançando no assoalho.
Ela está fazendo três anos e eu fico me perguntando se todo aniversário dela eu vou chorar desse jeito, como se ela já estivesse saindo de casa.
É uma gentinha pequena de porcelana correndo e rindo vestida de bailarina com sapatos vermelhos, que quase parece pessoa de verdade, e que um dia vai crescer e sair de casa.
Não cresça, bebê. Seja bailarina pra sempre.
Feliz aniversário.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Palavras flutuantes
Não acho que ele seja alguém ruim. É isso mesmo que ele quer que pensem e é isso mesmo que pensam, mas eu não acho, não. Porque as palavras dele flutuam. Se ele te mandar tomar no cu, a frase vai rolar devagar e flutuar, colorida por entre os lábios e pousar tão suavemente nos seus pés que até enjoa. E você vai ter vontade de sorrir. Alguém te manda tomar no cu e você vai sorrir.
Ele consegue fazer essas coisas, mesmo.
Ele não é ruim porque coisas pesadas não flutuam, e porque as palavras dele nunca pousam respingando coisas ruins. Algumas nem pousam. Ficam no ar. São essas partículas minúsculas que a gente vê na luz. Outras caem graciosamente desajeitadas.
Isso deve ser bondade.
Ele consegue fazer essas coisas, mesmo.
Ele não é ruim porque coisas pesadas não flutuam, e porque as palavras dele nunca pousam respingando coisas ruins. Algumas nem pousam. Ficam no ar. São essas partículas minúsculas que a gente vê na luz. Outras caem graciosamente desajeitadas.
Isso deve ser bondade.
sábado, 12 de março de 2011
Me quis tão livre das outras coisas que me tornei completamente prisioneira de mim mesma. Tento me livrar de mim.
E não dá, não dá, não dá, nunca dá.
O vento me quer livre, a fumaça me quer livre, até as calçadas me querem livre. As calçadas que estão só a mercê da gente. Mas é tanta pele, tanta alma, tanto sangue, tanta gente e pouca juliana. Alma existe? Não. Alma sangra.
Só sei que estou muito ocupada existindo, e existir me dá um enjôo do caralho. Hoje estou ocupada, existindo. Existir é não ser livre de mim.
E agora me deixo em paz.
E não dá, não dá, não dá, nunca dá.
O vento me quer livre, a fumaça me quer livre, até as calçadas me querem livre. As calçadas que estão só a mercê da gente. Mas é tanta pele, tanta alma, tanto sangue, tanta gente e pouca juliana. Alma existe? Não. Alma sangra.
Só sei que estou muito ocupada existindo, e existir me dá um enjôo do caralho. Hoje estou ocupada, existindo. Existir é não ser livre de mim.
E agora me deixo em paz.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Eu, sonolenta, em pé na beira de uma rocha alta. Parece que alguns gritavam "Não cai! Não cai!" mas eu dormia e caia. Dentro da minha cabeça de novo. Caia na sala de uma casa que não era minha e o homem saia de um quadro que não era meu. E tudo ficava escuro, então. Eu ouvia as vozes no andar de cima e sentia medo. "parem de jogar vida em mim!!" eu queria implorar, mas eu estava tão dentro da minha mente!...
Quando eu conseguia voltar, finalmente, pensava em qualquer coisa que me deixasse em pé ou que me fizesse cair pro lado oposto do abismo. Mas qualquer coisa real que eu pudesse pensar no momento era infinitamente mais abstrato que o próprio sonho. Então eu, mais um vez, despencava. E denovo. E denovo. Fiz pratos tilintarem e tudo que era habitual e seguro desapareceu. 3 minutos, e eu voltava. 3 minutos.
Quando eu conseguia voltar, finalmente, pensava em qualquer coisa que me deixasse em pé ou que me fizesse cair pro lado oposto do abismo. Mas qualquer coisa real que eu pudesse pensar no momento era infinitamente mais abstrato que o próprio sonho. Então eu, mais um vez, despencava. E denovo. E denovo. Fiz pratos tilintarem e tudo que era habitual e seguro desapareceu. 3 minutos, e eu voltava. 3 minutos.
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