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sábado, 7 de julho de 2018

lembro da minha gigante coleção de ossos, tirados de todos os lugares
ossos de pássaros, de peixes
e você, querendo imprimir em mim o tipo de lava que existe em você,
- nunca com palavras porque você gostava de manusear as coisas que existem no ar - quebrou-os tanto 
e os vizinhos viram uma farinha de ossos caírem oito andares, sujando uma janela de cada vez.
essas suas ideias sempre causam um tipo de suspensão de alguma coisa
pra mim a farinha ficou suspensa por dias
os pedacinhos maiores lá embaixo, na calçada, pedacinhos de estrutura de corpo
não apenas de um animal mas de vários
e uma coisa dentro de mim suspensa, uma coisa muito sútil como uma fumaça parada no ar
o tempo um pouco parado



. .,      .    . ...

domingo, 1 de julho de 2018

em mim habita uma coisa antiga que quer sair
e ela não se importaria se tivesse que rasgar minha garganta ou peito. eu preferiria que ela fizesse; saísse com violência, sem usar os caminhos usuais do corpo
mas ela é paciente essa coisa
ela assiste minhas tentativas de deixá-la sair pelos olhos e reconhece meu esforço
mesmo eu sabendo que ela é grande demais e nunca seria tão fácil.
em dias de lua cheia é pior
é como se eu fosse sempre um bicho grávido, quase parindo
e a coisa se revira em mim como os bebês se reviram na hora de nascer,
mas ela nunca nasce
(na cidade as vezes penso que vi a lua
mas quando olho direito é um poste ou uma placa do burguer king).
essa coisa antiga é muito sincera e crua. ela deve ser feita de terra e carne e pulsar de um jeito brusco, com uns olhos imensos que olham sempre (esses olhos eu sinto no fundo de tudo).
se eu ficar bem quieta, ouço dentro aqui
ela não fala
tem um som estridente de silêncio e gargalhada
eu queria poder tirar minha pele como quem tira uma fantasia
e deixar a coisa existir.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

ontem você perguntou o que eu estava pensando
imagino que sua curiosidade pequena abarque as vezes meu silêncio 
e eu quis perguntar se você sentia a sutileza da vida
se você achava engraçada ou assustadora ou os dois.
perguntei mentalmente se você também sente que é tão imenso viver não sabendo do segundo seguinte
não sabendo se um avião despencará do céu em cima da cama
se nossos corações ainda estarão inteiros bombeando bombeando
não sabendo se uma pessoa na china vai apertar um botão que explodirá o mundo
não sabendo se eu vou levantar abruptamente a cabeça do seu colo e te dar um beijo
não sabendo
e enquanto eu te falava isso mentalmente você perguntou "o que nós vamos fazer agora?"
o que nós vamos fazer agora meu deus
se isso é a vida, abrupta engraçada assustadora 
cheia de segundos seguintes, como é que alguém poderia responder isso?
disse "não sei" e foi muito sincero.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Deslizo
na incerteza, na inverdade 
escapo
Esticando o corpo tento alcançar o que fui
Deslizo na dúvida e no medo mas sei que habito no amor
sei e sinto
Cozinho coisas, tomo cerveja, faço sexo e limpo a casa quase sempre esquecida de mim
Mas me preocupo muito pouco e raramente
porque não tenho fim
porque estou, 
sei e sinto.

sexta-feira, 16 de março de 2018

uma coisa que todo mundo sabe é que não é possível que dois corpos ocupem o mesmo lugar no espaço
eu nunca pretendi ser uma grande cientista 
mas sinto que no meu quarto escuro ou na sua cama embaixo da janela
a gente chega perto de conseguir.
pensei em contar pra comunidade acadêmica, em relatos oficiais
sobre sua pele mansa
sobre como eu perco a capacidade de definir o limite de onde termina meu corpo e começa o seu.
escreveria assim: "as vezes eu me sinto tão ela que não sei qual de nós duas teve um pensamento
a voz dela ecoa na minha garganta
e nós temos o mesmo tamanho, cor, temperatura."
mas aí penso que cientistas observadores importantes seriam enviados, e a coisa não aconteceria
porque normalmente, eu sou eu e você é você
cada uma ocupando seu próprio lugar.
mas nessas horas de quebrar as leis, é necessário que ninguém saiba, que ninguém esteja lá
além do meu-seu corpo.