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terça-feira, 17 de maio de 2016

isso é saudade

você é como um desenho sem contorno. te olhando agora tenho a impressão de que o céu reflete na sua pele. quando você pára em pé diante do mar, vira uma pequena extensão vertical dele. te olhar faz meu olhar dançar, fugir. seu corpo se funde ao teu em-volta, por amor ou escapismo, em limites diluídos. a linha onde seu cabelo toca suas costas parece abrigar vento.
mas te vejo com os olhos enevoados de passado e de coisas que não existem mais. e já é possível ver a semente de medo.
(tua-minha no meu presente ou no teu?)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

alimentarei a fogueira que você me preparou.
atirarei ao fogo meu sangue, meus feitiços, meu gritos, meus medos, meu vinho.
resistirei como uma ideia 
resistirei porque sou uma alma que é infinita e indivisível e que também é fogo
sobrará em mim a verdade e meus dentes para que eu possa sorrir e mastigar o medo
e serei desses solos que ficam férteis depois da queimada, porque comerei minhas próprias cinzas e assim crescerei 

terça-feira, 3 de maio de 2016

não sei o dia exato que você foi embora. acho que foi um processo lento, a cada hora um pedacinho bem pequeno seu partia.
nunca recebi uma despedida brusca. quando eu percebi, sua ausência se mostrou comigo, seu lugar vago ainda morno.
nesse dia incerto de ir embora nenhum satélite parou. nenhum pássaro morreu por isso. a chuva não caiu diferente. as coisas do céu permaneceram no céu. as coisas do chão ainda eram as coisas do chão.
eu permaneci acima do chão. nunca fui um castelo de cartas como nós talvez pensássemos, porque o vento bateu forte e eu permaneci.
eu te amo.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

eu queria saber se o mar sabe de si próprio.
se eu fosse o mar, escreveria, com pequenas ondas, poesias sobre os seres que vivem em mim. descreveria a sensação de envolver as pessoas, roubar a temperatura de seus corpos. saberia que sou grande e assustador e devoraria embarcações lotadas, mas por amor.
rugiria como a ferocidade pura e líquida que sou. rugiria a noite inteira. me atiraria contra as pedras com uma violência doce. e seria o útero das sereias. seria o chão das gaivotas.
talvez não soubesse, mas sentiria que inspiro e acalmo.
eu saberia, se fosse o mar, que as lágrimas das pessoas são pequenas células de mim.
você me lê?
ontem li que a vida é um sonho e por um décimo de um milionésimo de um micro segundo, acordei.
foi um momento tão pequeno que nem deu tempo de nascer em mim a vontade de segurá-lo. tão pequeno que nem sei se foi real.
foi minha vida, essa vida, condensada.
risquei meus braços para que não me esquecesse VOCÊ ESTÁ SONHANDO
mas esqueci, e estou esquecida ainda agora.
deus me lê?