Ela enxergava melhor quando era quase-escuro, e embora os cientistas e algumas outras pessoas dissessem que não, era verdade. Já estava amanhecendo e ela não dormiu porque o tempo passava muito rápido. Já era outra década e já eram 5 da manhã. A luz estava perfeita. Entre as frestas da persiana entrava uma pseudo claridade tosca, que deixava os rabiscos da parede assustadores, e era assim que eles eram mesmo, e era assim que o mundo era, e isso só podia ser visto no escuro. No sol todas as coisas vestem uma fantasia bonita e é daí que surgiu essa lenda do mundo ser bonito. A verdadeira beleza e a verdadeira feiura só pode ser vista no escuro porque o mundo fica despido e frágil e você fica despida e frágil, e é assim que você é, e é assim que o mundo é.
A verdade fica esperando nos lencóis porque à noite as pessoas podem ser tristes e o mundo pode ser triste e os pássaros podem ser tristes, porque é desse jeito que os pássaros são. E você pode ter sonhos rídiculos que foram feitos pra te fazer fugir da realidade noturna, e aí você vive em sonhos bonitos de dia e de noite, no sol e no sonho, e a noite se defende te mandando insônia e te mandando um monte de parentes chatos.
E é assim que o mundo é.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Os cantos das janelas do kitnet minúsculo da amanda eram cheios de teias de aranha e sujeira porque ela nunca abria a janela toda. Não gostava muito do dia e estava particularmente odiando aquelas manhãs de verão, calor, chuva, calor, corpos bronzeados, barrigas de tanquinho, calor, suor. Não saía de casa de dia. Não precisava, só conseguia clientes a noite. E quando tinha que sair, se enchia de protetor e umas roupas quentes pra cobrir cada centímetro de pele, por isso tinha uma cor cinza meio esquisita de doença, e por isso também, perdia muita gente pras concorrentes bronzeadas com marcas de biquinis.
Amanda tinha uma filha, mas abandonou quando nasceu e foi a coisa mais difícil que ela já fez. Sempre usava batom vermelho. A coisa mais cara que ela tinha era uma bota de couro sintético que ela não usava pra trabalhar. Ela gostava de azul. Tinha aids. Gostava de margaridas mas achava que não era digna de ter margaridas em casa, que não era nem justo torturar flores com aquele cheiro ácido e aquele apartamento ridículo e triste. Sábado passado tinha ido num parque e ficado horas sentada na frente de um canteiro de margaridas no sol, estava queimada e descascando e teve que baixar o preço da foda naquela semana. Um dia desses ouviu uma gargalhada e pensou que era a filha dela. Nunca soube se era mesmo. As vezes ela tinha pesadelos com bebês a acordava com a mão na barriga, e chorava, chorava, chorava.
Amanda tinha uma filha, mas abandonou quando nasceu e foi a coisa mais difícil que ela já fez. Sempre usava batom vermelho. A coisa mais cara que ela tinha era uma bota de couro sintético que ela não usava pra trabalhar. Ela gostava de azul. Tinha aids. Gostava de margaridas mas achava que não era digna de ter margaridas em casa, que não era nem justo torturar flores com aquele cheiro ácido e aquele apartamento ridículo e triste. Sábado passado tinha ido num parque e ficado horas sentada na frente de um canteiro de margaridas no sol, estava queimada e descascando e teve que baixar o preço da foda naquela semana. Um dia desses ouviu uma gargalhada e pensou que era a filha dela. Nunca soube se era mesmo. As vezes ela tinha pesadelos com bebês a acordava com a mão na barriga, e chorava, chorava, chorava.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Nós colocamos lembraças naquele corredor
e em algum lugar entre aqueles pisos e entre meus neurônios afetados, elas ainda existem.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Os epílogos antes do resto.
Morrer é certo. Mediocridade é certa. Desamores, cansaço, escravidão, domingos.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Amélia
Amélia era uma daquelas mulheres intensas. Gostava de tudo bem salgado ou bem doce, bem forte, bem sentido, bem devagar. Não que fosse 'quente ou frio, ama ou odeia, toca ou não toca, 8 ou 80', ela até gostava do morno, o problema é que Amélia queria todos os prazeres da vida, e queria todas as dores também, de tanto que gostava de sentir.
E Amélia fazia drama e Amélia pulava de para quedas e Amélia fazia sexo com estranhos e viajava e ria e invadia festas e chorava e ficava bêbada e vivia
Amélia vivia.
Mas um dia Amélia sentiu tanto, mas tanto,
que morreu de sentir.
E Amélia fazia drama e Amélia pulava de para quedas e Amélia fazia sexo com estranhos e viajava e ria e invadia festas e chorava e ficava bêbada e vivia
Amélia vivia.
Mas um dia Amélia sentiu tanto, mas tanto,
que morreu de sentir.
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