ontem você perguntou o que eu estava pensando
imagino que sua curiosidade pequena abarque as vezes meu silêncio
e eu quis perguntar se você sentia a sutileza da vida
se você achava engraçada ou assustadora ou os dois.
perguntei mentalmente se você também sente que é tão imenso viver não sabendo do segundo seguinte
não sabendo se um avião despencará do céu em cima da cama
se nossos corações ainda estarão inteiros bombeando bombeando
não sabendo se uma pessoa na china vai apertar um botão que explodirá o mundo
não sabendo se eu vou levantar abruptamente a cabeça do seu colo e te dar um beijo
não sabendo
e enquanto eu te falava isso mentalmente você perguntou "o que nós vamos fazer agora?"
o que nós vamos fazer agora meu deus
se isso é a vida, abrupta engraçada assustadora
cheia de segundos seguintes, como é que alguém poderia responder isso?
disse "não sei" e foi muito sincero.
quinta-feira, 24 de maio de 2018
terça-feira, 15 de maio de 2018
Deslizo
na incerteza, na inverdade
escapo
Esticando o corpo tento alcançar o que fui
Deslizo na dúvida e no medo mas sei que habito no amor
sei e sinto
Cozinho coisas, tomo cerveja, faço sexo e limpo a casa quase sempre esquecida de mim
Mas me preocupo muito pouco e raramente
porque não tenho fim
porque estou,
sei e sinto.
na incerteza, na inverdade
escapo
Esticando o corpo tento alcançar o que fui
Deslizo na dúvida e no medo mas sei que habito no amor
sei e sinto
Cozinho coisas, tomo cerveja, faço sexo e limpo a casa quase sempre esquecida de mim
Mas me preocupo muito pouco e raramente
porque não tenho fim
porque estou,
sei e sinto.
sexta-feira, 16 de março de 2018
uma coisa que todo mundo sabe é que não é possível que dois corpos ocupem o mesmo lugar no espaço
eu nunca pretendi ser uma grande cientista
mas sinto que no meu quarto escuro ou na sua cama embaixo da janela
a gente chega perto de conseguir.
pensei em contar pra comunidade acadêmica, em relatos oficiais
sobre sua pele mansa
sobre como eu perco a capacidade de definir o limite de onde termina meu corpo e começa o seu.
escreveria assim: "as vezes eu me sinto tão ela que não sei qual de nós duas teve um pensamento
a voz dela ecoa na minha garganta
e nós temos o mesmo tamanho, cor, temperatura."
mas aí penso que cientistas observadores importantes seriam enviados, e a coisa não aconteceria
porque normalmente, eu sou eu e você é você
cada uma ocupando seu próprio lugar.
mas nessas horas de quebrar as leis, é necessário que ninguém saiba, que ninguém esteja lá
além do meu-seu corpo.
quinta-feira, 1 de março de 2018
vamos pela vida juntos
porque os mesmos segundos passam para todos.
caminhamos através do tempo
do útero até o fim,
todos.
e se o caminho pudesse nos fazer perder a pressa
e fossemos arrebatados pela calma
nos olharíamos?
eu tento
eu tento eu tento
manter no peito um buraco lindo
uma malha fina e vazada
um espaço aberto pra que o vento passe e assovie
e pra que o mundo passe e as pessoas passem
as vezes realmente consigo
tudo me atravessa e eu também atravesso o buraco aberto no peito de tudo.
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
hoje, no caminho pra te encontrar,
pensei nas coisas absurdas que você fala.
ri um riso de ternura absoluta porque essas coisas provocam chuva,
como se eu me desfizesse em pedaços de água
ou como se fosse você chovendo aqui dentro
alagando aqui dentro
criando poças
e caminhando descalça em mim.
por um tempo senti um medo afiado, familiar
medo de escancarar minha cabeça e minha casa, de te ver entrar com sua ventania,
mas não tenho mais.
porque não consigo imaginar seus olhos mansinhos me dirigindo raiva,
porque eu preferiria sentir muita dor antes de te causar alguma,
e sobretudo porque não vejo nada que não seja beleza ao redor seu.
(só tenho medo ainda de nunca mais conseguir escrever outra coisa que não seja você.)
pensei nas coisas absurdas que você fala.
ri um riso de ternura absoluta porque essas coisas provocam chuva,
como se eu me desfizesse em pedaços de água
ou como se fosse você chovendo aqui dentro
alagando aqui dentro
criando poças
e caminhando descalça em mim.
por um tempo senti um medo afiado, familiar
medo de escancarar minha cabeça e minha casa, de te ver entrar com sua ventania,
mas não tenho mais.
porque não consigo imaginar seus olhos mansinhos me dirigindo raiva,
porque eu preferiria sentir muita dor antes de te causar alguma,
e sobretudo porque não vejo nada que não seja beleza ao redor seu.
(só tenho medo ainda de nunca mais conseguir escrever outra coisa que não seja você.)
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