Quis te escrever pra explicar que, apesar de tudo, sou capaz de sentir-ser amor.
E pensei que fosse necessário enfeitar as bordas da minha poesia com desenhos de flores feitas de aquarela pra que a beleza te atingisse e você pudesse entender. Pra te provar que, mesmo apesar de tudo, eu sou capaz de grandes belezas.
Mas quero que você encare essa poesia como um choro. Como se eu te agarrasse as pernas e chorasse com soluços e ar embolado na boca. Quero te falar com a violência de um pássaro. Com a violência da vida. Quero te falar com a violência doce de parir.
Quando eu tinha uns 7 anos, um garoto mais velho me encurralou contra a parede e quis ver o que eu tinha debaixo da calcinha. Talvez eu não tenha entendido esse pedido na hora, mas aprendi eventualmente que os garotos te pedem essas coisas como quem tem direito. Ele, com a confiança e naturalidade herdada do mundo, fez esse pedido sabendo que exercia poder sobre meu corpo pequeno que eu ainda nem conhecia.
Eu, que nem me olhava muito no espelho, que ainda nem entendia direito os limites entre minha carne e o exterior dela, tive que lidar com a ideia de que um outro alguém pensava sobre as coisas que eu tinha debaixo da calcinha.
Nesse dia eu aprendi a tomar um cuidado amargo. Entendi que em mim existia um sentimento ruim de defesa e agressividade e que as vezes eu precisaria usá-lo, por mais desagradável que fosse.
Apesar de tudo, eu sou amor.
Apesar da minha voz de fêmea ser barulho de poeira caindo no mar, e sua voz de homem ser alta e ecoar em todos os ouvidos, eu sei amar.
As vezes ser mulher é ser coisa aos olhos alheios. E, tomando consciência disso, as vezes minha vontade é arrancar esses olhos e alterar com as mãos a forma como eles me enxergam.
As vezes ser mulher é sentir que não importa o quanto você faça e queira, seu corpo não é seu.
As vezes ser mulher é duvidar da própria sanidade porque parece loucura não querer interpretar meu papel de mulher num mundo de homens.
E em todas as vezes ser mulher é ser desconsiderada nas palavras, nos gestos. É não ter propriedade nem conhecimento, por mais que você tenha.
Mas apesar de tudo, eu sei sentir-ser amor. Algumas de nós não sabem. Algumas tantas de nós que foram mutiladas, física e emocionalmente. Algumas tantas de nós que olham homens de corpo aberto e palavra larga, homens que podem, homens que não sabem que podem tanto e homens que nos desejam
mesmo quando não queremos ser desejadas.
Algumas de nós não conseguem mais amar e eu entendo. Porque quando faço arte, vocês me imaginam na cama. Porque quando lavo roupa, vocês me imaginam na cama. Porque quando vou ao médico, faço compras, dou risada, como uma pizza, vocês me imaginam na cama. Quando vivo minha vida normal de ser humano que sou, vocês me imaginam na cama. É pra isso que sirvo.
Mas apesar de tudo, apesar de tudo, apesar de tudo, eu amo. Eu sou resiliente e amo.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
nas horas que o sol alcança uma luminosidade perigosa, nas horas perigosas do dia, nos pesamentos perigosos
a poesia mora. a poesia mora em todas as ocasiões. na banalidade das tardes amenas
e onde a guerra faz corpos deitarem mortos nas ruas.
nos lugares fedidos, nas pessoas fedidas
a poesia mora onde a gente não acha que ela poderia morar por só vermos o feio - mas a poesia mora mais no feio
ela mora nas listas, nas barbas, na tristeza, na falta de nobreza
poesia não é nobre, nem a poeta
o único lugar onde não mora poesia é no mar
ele não precisa
a poesia mora. a poesia mora em todas as ocasiões. na banalidade das tardes amenas
e onde a guerra faz corpos deitarem mortos nas ruas.
nos lugares fedidos, nas pessoas fedidas
a poesia mora onde a gente não acha que ela poderia morar por só vermos o feio - mas a poesia mora mais no feio
ela mora nas listas, nas barbas, na tristeza, na falta de nobreza
poesia não é nobre, nem a poeta
o único lugar onde não mora poesia é no mar
ele não precisa
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
conheço uma mulher muito velha. ela está numa idade da vida que não consegue falar mais nada sem filosofar. abre a boca careca de dentes e vai soltando umas palavras que são na verdade dúvidas, e divaga sobre viver e reclama das dores do corpo velho. acho que ela filosofa porque o olho já está enxergando lonjuras, que a gente aqui na juventude ainda não pode enxergar.
ontem ela me disse que quando deita na cama, fica pensando em quem já morreu. disse que fica assim "esse já foi, esse já foi, esse foi também, esse foi..." e que reclama com Deus porque isso não é pensamento bom de por na cabeça dela. aí disse assim "isso é coisa de vivo pensar?"
quando fico perto dela parece que o tempo passa bem devagar. acho que ela altera a forma do tempo passar sugando a velocidade dele pra dentro do corpo velho e gooordo. sugando pra dentro das tranças do cabelo comprido e branco, muito comprido e muito branco.
as vezes ela vai passear no quintal e leva muitos minutos pra chegar até lá. quando chega, conhece todas as ervas, arranca uns hortelãs que eu nem lembrava que estavam lá, e usa pra fazer um chá que não vai tomar.
se essa mulher não existisse, muitas coisas não existiriam. não existiriam os marionetes nem os atores feitos de carne. não existiria hortelã. sítios no interior não existiriam não.
só existiria a velocidade do tempo.
ontem ela me disse que quando deita na cama, fica pensando em quem já morreu. disse que fica assim "esse já foi, esse já foi, esse foi também, esse foi..." e que reclama com Deus porque isso não é pensamento bom de por na cabeça dela. aí disse assim "isso é coisa de vivo pensar?"
quando fico perto dela parece que o tempo passa bem devagar. acho que ela altera a forma do tempo passar sugando a velocidade dele pra dentro do corpo velho e gooordo. sugando pra dentro das tranças do cabelo comprido e branco, muito comprido e muito branco.
as vezes ela vai passear no quintal e leva muitos minutos pra chegar até lá. quando chega, conhece todas as ervas, arranca uns hortelãs que eu nem lembrava que estavam lá, e usa pra fazer um chá que não vai tomar.
se essa mulher não existisse, muitas coisas não existiriam. não existiriam os marionetes nem os atores feitos de carne. não existiria hortelã. sítios no interior não existiriam não.
só existiria a velocidade do tempo.
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
Grudado no asfalto reconheço o que um dia pode ter sido um pássaro. Uma das vidas que a velocidade esmagou. A cidade que devora tudo abre sua boca dura dentes de asfalto e mastiga o pássaro.
Transforma-o em mancha onde não se reconhece sangue ou ossos. Se ele tivesse mil vidas, teria morrido mil vezes.
Transforma-o em mancha onde não se reconhece sangue ou ossos. Se ele tivesse mil vidas, teria morrido mil vezes.
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
73
Isabel tinha a boca mais suja que uma menina podia ter em 1982. Era engraçado porque ela era pequena e fofa, e quando xingava os homens da rua com aquelas palavras, ninguém nunca estava esperando. Ela falava as palavras de um jeito, que parecia que antes delas chegarem na boca dela tinham passado pelas tripas dos peixes mais podres e pelo cu de andarilhos imundos.
Mas era pequena e fofa e por isso era perdoada.
Isabel me acompanhava no processo de virar mulher. Era um caminho dolorido o desabrochar, os seios despontavam, o corpo arrendondava e o suor ficava doce. Nós olhávamos e apalpávamos o corpo da outra, tentando reconhecer-se na pele alheia, trocando figurinhas, minha bunda está maior, você tem espinhas nas costas, acho que tem um caroço no seu peito.
Um caroço no seu peito.
Ela continuou levando a vida como se não soubesse. Não contou pra mãe, não escreveu no diário.
Mas eu sabia. Mais que saber, sentia ainda nos dedos as protuberâncias.
Muito rápido ela ficou doente, e muito rápido a doença acabou. Pra mim, a doença dela foi uma coisa com muita fome, que se alimentava um pouco do corpo e um pouco do espírito, mas a fome não era saciada nunca e então começou a se alimentar de alegria, e ainda não era suficiente então comeu as palavras todas, isabel não xingava mais, mas a fome ainda existia então a doença comeu a juventude e comeu a vida e quando não tinha mais nada, foi procurar outra fonte. Enterraram o que sobrou de Isabel, os cabelos, os dentes, e uma pele que por dentro estava cheia de nada.
Coloquei pra deitar na terra um bilhete com todos os palavrões que aprendi com ela, pro caso dela precisar xingar deus.
Mas era pequena e fofa e por isso era perdoada.
Isabel me acompanhava no processo de virar mulher. Era um caminho dolorido o desabrochar, os seios despontavam, o corpo arrendondava e o suor ficava doce. Nós olhávamos e apalpávamos o corpo da outra, tentando reconhecer-se na pele alheia, trocando figurinhas, minha bunda está maior, você tem espinhas nas costas, acho que tem um caroço no seu peito.
Um caroço no seu peito.
Ela continuou levando a vida como se não soubesse. Não contou pra mãe, não escreveu no diário.
Mas eu sabia. Mais que saber, sentia ainda nos dedos as protuberâncias.
Muito rápido ela ficou doente, e muito rápido a doença acabou. Pra mim, a doença dela foi uma coisa com muita fome, que se alimentava um pouco do corpo e um pouco do espírito, mas a fome não era saciada nunca e então começou a se alimentar de alegria, e ainda não era suficiente então comeu as palavras todas, isabel não xingava mais, mas a fome ainda existia então a doença comeu a juventude e comeu a vida e quando não tinha mais nada, foi procurar outra fonte. Enterraram o que sobrou de Isabel, os cabelos, os dentes, e uma pele que por dentro estava cheia de nada.
Coloquei pra deitar na terra um bilhete com todos os palavrões que aprendi com ela, pro caso dela precisar xingar deus.
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