conheço uma mulher muito velha. ela está numa idade da vida que não consegue falar mais nada sem filosofar. abre a boca careca de dentes e vai soltando umas palavras que são na verdade dúvidas, e divaga sobre viver e reclama das dores do corpo velho. acho que ela filosofa porque o olho já está enxergando lonjuras, que a gente aqui na juventude ainda não pode enxergar.
ontem ela me disse que quando deita na cama, fica pensando em quem já morreu. disse que fica assim "esse já foi, esse já foi, esse foi também, esse foi..." e que reclama com Deus porque isso não é pensamento bom de por na cabeça dela. aí disse assim "isso é coisa de vivo pensar?"
quando fico perto dela parece que o tempo passa bem devagar. acho que ela altera a forma do tempo passar sugando a velocidade dele pra dentro do corpo velho e gooordo. sugando pra dentro das tranças do cabelo comprido e branco, muito comprido e muito branco.
as vezes ela vai passear no quintal e leva muitos minutos pra chegar até lá. quando chega, conhece todas as ervas, arranca uns hortelãs que eu nem lembrava que estavam lá, e usa pra fazer um chá que não vai tomar.
se essa mulher não existisse, muitas coisas não existiriam. não existiriam os marionetes nem os atores feitos de carne. não existiria hortelã. sítios no interior não existiriam não.
só existiria a velocidade do tempo.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
Grudado no asfalto reconheço o que um dia pode ter sido um pássaro. Uma das vidas que a velocidade esmagou. A cidade que devora tudo abre sua boca dura dentes de asfalto e mastiga o pássaro.
Transforma-o em mancha onde não se reconhece sangue ou ossos. Se ele tivesse mil vidas, teria morrido mil vezes.
Transforma-o em mancha onde não se reconhece sangue ou ossos. Se ele tivesse mil vidas, teria morrido mil vezes.
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
73
Isabel tinha a boca mais suja que uma menina podia ter em 1982. Era engraçado porque ela era pequena e fofa, e quando xingava os homens da rua com aquelas palavras, ninguém nunca estava esperando. Ela falava as palavras de um jeito, que parecia que antes delas chegarem na boca dela tinham passado pelas tripas dos peixes mais podres e pelo cu de andarilhos imundos.
Mas era pequena e fofa e por isso era perdoada.
Isabel me acompanhava no processo de virar mulher. Era um caminho dolorido o desabrochar, os seios despontavam, o corpo arrendondava e o suor ficava doce. Nós olhávamos e apalpávamos o corpo da outra, tentando reconhecer-se na pele alheia, trocando figurinhas, minha bunda está maior, você tem espinhas nas costas, acho que tem um caroço no seu peito.
Um caroço no seu peito.
Ela continuou levando a vida como se não soubesse. Não contou pra mãe, não escreveu no diário.
Mas eu sabia. Mais que saber, sentia ainda nos dedos as protuberâncias.
Muito rápido ela ficou doente, e muito rápido a doença acabou. Pra mim, a doença dela foi uma coisa com muita fome, que se alimentava um pouco do corpo e um pouco do espírito, mas a fome não era saciada nunca e então começou a se alimentar de alegria, e ainda não era suficiente então comeu as palavras todas, isabel não xingava mais, mas a fome ainda existia então a doença comeu a juventude e comeu a vida e quando não tinha mais nada, foi procurar outra fonte. Enterraram o que sobrou de Isabel, os cabelos, os dentes, e uma pele que por dentro estava cheia de nada.
Coloquei pra deitar na terra um bilhete com todos os palavrões que aprendi com ela, pro caso dela precisar xingar deus.
Mas era pequena e fofa e por isso era perdoada.
Isabel me acompanhava no processo de virar mulher. Era um caminho dolorido o desabrochar, os seios despontavam, o corpo arrendondava e o suor ficava doce. Nós olhávamos e apalpávamos o corpo da outra, tentando reconhecer-se na pele alheia, trocando figurinhas, minha bunda está maior, você tem espinhas nas costas, acho que tem um caroço no seu peito.
Um caroço no seu peito.
Ela continuou levando a vida como se não soubesse. Não contou pra mãe, não escreveu no diário.
Mas eu sabia. Mais que saber, sentia ainda nos dedos as protuberâncias.
Muito rápido ela ficou doente, e muito rápido a doença acabou. Pra mim, a doença dela foi uma coisa com muita fome, que se alimentava um pouco do corpo e um pouco do espírito, mas a fome não era saciada nunca e então começou a se alimentar de alegria, e ainda não era suficiente então comeu as palavras todas, isabel não xingava mais, mas a fome ainda existia então a doença comeu a juventude e comeu a vida e quando não tinha mais nada, foi procurar outra fonte. Enterraram o que sobrou de Isabel, os cabelos, os dentes, e uma pele que por dentro estava cheia de nada.
Coloquei pra deitar na terra um bilhete com todos os palavrões que aprendi com ela, pro caso dela precisar xingar deus.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
minha relação contigo nunca foi de necessidade, mas sabia do seu prazer em atender minhas acontecências.
e você sabia do meu.
como na noite em que você me ligou chorando porque encontrou um carrapato no seu braço, e precisava de uma vistoria nos lugares do seu corpo que você não enxergava.
eu ri o caminho inteiro pensando nos seus exageros.
e quando era aniversário do seu gato e eu fiz um bolo pra ele, mas ele cheirou, se espreguiçou e dormiu.
fazíamos pela outra coisas que não precisávamos, até coisas que talvez fosse melhor não fazer, mas encontramos na superficialidade a convergência de vontades.
e pude te amar do melhor amor porque ele não me faria falta quando acabasse.
e você sabia do meu.
como na noite em que você me ligou chorando porque encontrou um carrapato no seu braço, e precisava de uma vistoria nos lugares do seu corpo que você não enxergava.
eu ri o caminho inteiro pensando nos seus exageros.
e quando era aniversário do seu gato e eu fiz um bolo pra ele, mas ele cheirou, se espreguiçou e dormiu.
fazíamos pela outra coisas que não precisávamos, até coisas que talvez fosse melhor não fazer, mas encontramos na superficialidade a convergência de vontades.
e pude te amar do melhor amor porque ele não me faria falta quando acabasse.
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
volteia todo o pescoço com um cordão feito de
vontade
chega perto de mim pra emanar calor (energia térmica que sai do seu corpo e vem pro meu)
e contenho minha saliva na boca
mesmo que minha vontade seja espalhá-la em você
tiro o cabelo da nuca para que meu cheiro se difunda e te atinja
e você sente
é um jogo
vontade
chega perto de mim pra emanar calor (energia térmica que sai do seu corpo e vem pro meu)
e contenho minha saliva na boca
mesmo que minha vontade seja espalhá-la em você
tiro o cabelo da nuca para que meu cheiro se difunda e te atinja
e você sente
é um jogo
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