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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

volteia todo o pescoço com um cordão feito de
vontade
chega perto de mim pra emanar calor (energia térmica que sai do seu corpo e vem pro meu)
e contenho minha saliva na boca
mesmo que minha vontade seja espalhá-la em você
tiro o cabelo da nuca para que meu cheiro se difunda e te atinja
e você sente
é um jogo

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

para sua selvageria incurável

te escrevo com a ideia semi-inconsciente de que você vai sentir cada palavra, mesmo que minha intenção seja nunca te mostrá-las.
ouço em você uma voz de útero e dentes, que me fala numa língua antiga - que aprendi, parece, bem antes de nascer. uma língua que compreendo através dos músculos, gravada nas células do abdômen.
sinto um chamado na sua fúria (você é fúria e sexo), na sua voracidade, nos seus dentes imensos que me fagocitam sem me tocar.
e nos seus olhos vejo batidas de tambor.
você me afunda na terra

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

deitei a cabeça no peito da noite. ela respirou fundo e abriu as costelas pra que eu me pusesse entre elas
enrosquei os dedos no rio corrente do qual era feito seu cabelo
olhei bem fundo na noite. ela me olhou de volta com milhões de olhos e deu um riso pequeno de quem é infinito
a noite tem barulho de mar bravo

domingo, 14 de agosto de 2016

http://extra.globo.com/casos-de-policia/tres-suspeitos-morrem-em-confronto-com-policia-em-del-castilho-onibus-sao-incendiados-em-protesto-19905325.html

não posso querer explicar nada com palavras que, juntas, não formem poesia
um erro de digitação num jornal online disse que "Às 20h41, a vida foi liberada." depois de um viaduto ser interditado. 
e por um momento fiquei feliz.
os policiais entram na favela e matam crianças que vendiam drogas. 
pessoas de camisa vermelha brigam com pessoas de camisa verde. nossos dedos foram feitos pra colher frutas, pintar coisas, tocar instrumentos, coçar as partes que coçam
ou puxar gatilhos, lançar pedras?
em alguma parte, a mulher de algum policial deve ter na barriga um bebê. 
em alguma parte, dentro do calor úmido do solo deve estar brotando uma semente de uma planta chamada maconha
em alguma parte alheia a tudo isso, um meteoro deve destruir um planeta inteiro

m i l h õ e s
de pedacinhos devem estar se espalhando.
em algum momento algumas partes do meu corpo eram flutuantes viajantes no espaço. por acaso ou por amor elas se encontraram para abrigar minha alma
no mundo existem placas de rua
existem carros
existem baleias
existem crianças que morrem baleadas e homens que escrevem errado nos sites de notícias 
existem pessoas com dores de cabeça e coelhos selvagens que roubam vegetais de pequenas hortas. funk, pantufas, buracos negros, morangos e todas as coisas.
por existir tudo, não existe nada
eu sou um profundo silêncio capaz de amar. eu sou você e eu sou tudo
por eu ser tudo, não sou nada









quarta-feira, 27 de julho de 2016

nós precisaríamos de um mar
fervendo
pra matar os rastros da nossa imprudência
da nossa pele manchada
da nossa cabeça esquecida
e precisaríamos passar dias inteiros
olhando nuvens com afinco e atenção
pra que talvez fosse possível entendermos
como a vida funciona
precisaríamos ainda de longas horas de uma solidão absoluta
sem planos como se fosse férias
para ouvirmos nossas próprias palavras sem que isso fosse insuportável