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domingo, 30 de agosto de 2015

física

somos coisas muito orgânicas. com nossos pelos, quenturas, toda essa água.
suor, gengivas, ossos. minúsculas veias aparentes.
e a alquimia tão molhada que os corpos fazem com a comida.
gordura embaixo da pele, endométrios que descamam e vivos sacos escrotais. ar quente saindo da boca. todos os tubos de carne que transportam, buscam, trocam, eliminam. 
e fedemos tanto, de corpo e palavra. 
hormônios. bolhas de sangue. tumores, doenças. 
impressões digitais. porra.
identificações 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

no peito dos seres das flores

Entro no silêncio verde. A primeira vista é tudo imóvel. Faz frio, mas não o sinto. Ao contrário, sinto as raízes úmidas e mornas.
O barulho dos meus passos dispara alarmes: "intrusa! intrusa!" os insetos gritam. Mas abrandam com a dúvida "intrusa?..."
e uma hora me aceitam.
Cipós balançam com delicadeza, como que ninando alguém. Galhos se juntam quase formando uma fortaleza, por onde só as aranhas passam pra costurar ali suas teias.
Sou recebida com a peraltagem dos gnomos. Eles me pedem "tira o sapato." Diferente do que se possa pensar, eles não usam sapatos. Nem chapéus. Nem qualquer roupa. Andam nus. No máximo usam flores enroscadas nos pelos.
Obedeço. Sinto o cheiro dos cogumelos que brotam debaixo das folhas molhadas do chão. Salão de dança das fadas. (É raro que pisem no chão, as fadas. Quando pisam é pra dançar. Quando dançam, semeiam cogumelos.)
Sinto-me bêbada. Sei que não tem a ver com nada que eu tenha tomado; tem a ver com o crepitar das folhas, lá em cima de tudo. Com os sapos do rio. Com a terra molhada grudada nas plantas dos meus pés. Com as árvores que caíram mortas e ficam na horizontal da floresta, da tão vertical floresta.
Aproximo meu rosto de um musgo que cresce num tronco de árvore. Ele me beija; é uma despedida. Tchau criaturas.
A claridade do descampado é como um soco no estômago.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Não te apressa, mas também não demora muito que essa vida acaba.
Não vale a pena tremer e tensionar os músculos do abdômen por ansiedade.
Abre a janela pra poeira entrar: se a solidão tivesse cor, seria a cor da sua pele.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Paula me esperava na saída dos últimos dias de aula antes do verão. Chegava de blusão largo ou um vestidinho solto, de seios livres dentro da roupa respingada de sorvete, e eu a queria sempre. Quando me via parece que sorria o corpo inteiro, as pernas finas, a pele quase preta, o corte de cabelo. Abraçava-a e ela tinha cheiro de limão ou outra coisa cítrica.
Íamos por aí, tomávamos vinho na praça, e no fim da tarde chegávamos meio bêbadas na sua casa. Antes de acender a luz, antes até de trancar completamente a porta, eu a puxava pela nuca e pressionava contra a parede, distribuindo beijos cegos pelo seu rosto.
Em poucos passos casa adentro já estávamos nuas. Paula me segurava como se a vida pudesse escapar entre as frestas dos dedos se não segurasse forte. E não tinha pudor ou medo.
Sentia, nesses processos, o cheiro do verão que estava chegando.
As vezes, quando feixes da luz dos postes conseguiam entrar na casa, via minha saliva espalhada pelo seu corpo e sorria. E ela sorria. E seu sorriso me acertava como um flash nos olhos.
Deitávamos no tapete, ainda processando tudo que acabava de acontecer. Seu gosto na minha boca. Seu suor. Vinho.
No fim, eu via o clarão do isqueiro iluminar tudo por um segundo, e então a fumaça subindo. Tentava prender a cena entre meus cílios; seus seios subindo e descendo pelo arfar, a pele molhada, os pelos.
Mas o verão chegou rápido e derreteu as imagens. Porque éramos tão insuportavelmente humanas.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Esconde isso que pende do seu corpo. Aperta bem com sutiãs. Não lembra que seu pai disse que você "já tem teta grande, não tem vergonha não? vai por um biquíni maior" (lembra disso e não venha me provocar com eles. mas mostre-os quando eu pedir, safada).
Esconde esse sangue que te sai. Finge que não existe. Você realmente precisa falar isso alto? É sua intimidade, nojenta. São suas "coisas de mulher", é sujo, ninguém precisa saber. 
"Filha, o termo certo é "médico de mulher", tá bom?"
Esconde isso que tem no meio das pernas. Não quero ver calcinhas no varal. Aliás, que calcinhas são essas? Relaxada. E essas outras? Vulgar.
Prazer, imagina. Você é mulher, odeia sexo. Frígida. Ou não odeia? Vadia.
Mulher minha não precisa se masturbar não. Puta. Dou prazer sozinho. Não precisa saber do que ela gosta porque eu sei o que ela gosta.
pau.
Deixa que eu faço isso, flor. É trabalho pra homem. Fraca.