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domingo, 26 de abril de 2015

a boêmia burguesa

voltava, montada em sapatilhas delicadas, de um aniversário de um tio meio rico. não havia comido bem porque esse tipo de gente não come. usava um chapéu grande apesar da falta de sol que as noites geralmente tem. o pai a deixou de carro na frente da casa de uma amiga e partiu. assim que o carro virou a esquina, ela desceu a rua até um boteco cheio de gente triste, embriagada, ouvindo música alta pra não pensar. sem nenhuma empatia por aquele subordinado atrás do balcão, pediu a cerveja mais barata. e depois outra, e depois outra, e depois fumou maconha, e depois outra. deixou copos marcados de batom e sorriu para estranhos em troca de cigarros. seduziu por tédio alguns homens com quem ficou e alguma mulheres com quem não ficou.
o bar fechou e o dia quis amanhecer. ela vagou um pouco, ébria feito qualquer bêbado perdido, por ruas perigosas e que ela não sabia o nome.
chegou em casa meio sem querer e o pai fingiu que não sentiu o cheiro de quem não foi na casa de amiga nenhuma.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Não quero só contar com A Sorte. Quero confiar de vontade aberta em toda ordem de sortes e azares. Sair de casa sem saber o horário do ônibus e pegá-lo a tempo mesmo assim. E ser presenteada pela sorte com boas fotos, sem saber fotografar. Sair sem blusa confiando que existir é quente.
Defender com veemência a boa-fé do acaso e a casualidade da rua.
E desejar "boa sorte" com tanta sinceridade quanto eu dispor. 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Nem o poste que fica sempre aceso (nos dias de sol, ainda assim)
nem a criança no parquinho vazio
nem as casas abertas dos pássaros de barro
nada me acende (nem ascende, nem transcende)

quarta-feira, 25 de março de 2015

"a má gramática da vida nos poe entre pausas"

as regras de linguagem me dizem que não existe imperativo na primeira pessoa.
pois existe.
eu existo. eu me dou ordens.

S E L I B E R T E D E M I M!!

quarta-feira, 18 de março de 2015

a vida deve uma ter salvação que não seja entorpecer-se
e a tristeza oceânica deve ter um lugar pra desaguar que não sejam os olhos, ou as coisas materiais
e a alegria das coisas pequenas, não é possível que não exista um jeito
de se fazer com que ela dure quando essas coisas pequenas não puderem durar
e os amores não podem ser fugidios o tanto que parecem
e é preciso que a vida seja suportável tanto quanto é a solidão de vivê-la
e tem que ter um jeito de fazer com que as perdas não te quebrem, e os ganhos não te inflem

(solidão entorpece)