O corte na sua garganta era profundo demais, e assustador o bastante. Mas eu achei que você sobreviveria por gratidão.
Suas asas estavam tortas e embebidas nesse teu sangue de pássaro. Mas eu achei que você lutaria. Que bicaria a vida implorando pra que ela ficasse no seu corpo, do mesmo modo que bicou meus dedos minutos antes. Meus dedos que sangravam.
Ritualizei tua morte com esse meu sangue de humano. Foi uma troca. E quando percebi que você morreria, quis te explicar que não faz mal morrer, que você faria mais alguns vôos cósmicos e depois desceria aqui pra terra de novo, com um corpo outro. Mas não pude te dizer nada porque você era pássaro, e eu era gente.
Não pude fazer mais que te assistir. Você fez um barulho com o corpinho contra o espaço, bicou o chão com força (tanta força que te/me machucou) e morreu. Ali as minhas vistas de mulher, passou. Vi seus olhos esfriarem e sua respiração parar. Nunca vi coisa tão parada quanto você, nem mesmo pedra. E nunca vi coisa tão fria, nem mesmo chuva. Te toquei pra ver se sentia a vida indo embora, pra ver se sua alma ainda estava ali. Só senti silêncio e matéria orgânica inerte.
Você permitiu que eu te visse morrer. Ninguém nunca esteve tão cru na minha frente.
Era passarinho.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Não quero sair do óbvio: sinto sua falta. (e do quarto número 100 do hotel mais barato que encontramos)
Suas mãos eram quentes, grandes e duras. E eu sinto falta delas.
Você que nunca começava as frases com "um dia eu estava..." porque tudo que saía de você era momento presente.
Você que tinha cheiro da rua. Cheiro das suas andanças por aí.
As palavras rolavam da sua língua com facilidade e caíam, macias, no espaço. Sua boca musicada. Sua presença imponente e devoradora. Sua brutalidade morena. Sinto sua falta, moreno, sinto sua falta, com toxicidade sinto sua falta, patologicamente sinto tudo...
Você que nunca começava as frases com "um dia eu estava..." porque tudo que saía de você era momento presente.
Você que tinha cheiro da rua. Cheiro das suas andanças por aí.
As palavras rolavam da sua língua com facilidade e caíam, macias, no espaço. Sua boca musicada. Sua presença imponente e devoradora. Sua brutalidade morena. Sinto sua falta, moreno, sinto sua falta, com toxicidade sinto sua falta, patologicamente sinto tudo...
Eu quis achar que os insetos criavam asas no calor para passear nas noites quentes de verão. Quis achar que mariposas gostam de se vestir de lua, por isso ficam a noite toda imóveis. Pensei que as formigas usavam pontos nos ouvidos, para que se comuniquem em suas missões além-formigueiro. Que as árvores tremelicam com o vento porque ele canta, e elas dançam.
Mas a natureza não é bonita. A natureza é.
A natureza é, e a frase acaba assim.
Enquanto eu projetar meu amor, ele não existe. Enquanto eu projetar, meu amor...
Mas a natureza não é bonita. A natureza é.
A natureza é, e a frase acaba assim.
Enquanto eu projetar meu amor, ele não existe. Enquanto eu projetar, meu amor...
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
domingo, 30 de novembro de 2014
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