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quinta-feira, 16 de maio de 2013

pés de asfalto

Fazer parte dessa sujeira urbana diária quase me faz virar sujeira urbana também.
Parece que meus pés só são capazes de percorrer asfalto, porque meus pés viraram o próprio asfalto. Meus pulmões só funcionam com fumaça. Não escuto nada sem buzinas e sirenes bem altas. O céu? O céu é branco-doente. Qualquer cor diferente disso que eu eventualmente venha a enxergar, é coisa desses meus olhos patológicos. Nada no mundo é verde, só cinza.
E se você não for feito de plástico, por favor, não fale comigo.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Ela tanto, eu tão pouco. Ela barulho, eu calmaria.
Ela me quer muito, mas junto, todas.
Ela me puxa e me beija com urgência, aperta minha nuca, me morde. Depois me empurra, vira pro outro lado e dorme. Me conta mil histórias, mil noites e amores dos quais nenhum sou eu.
Me olha tão fundo que é difícil suportar não beijá-la. Me abre, me vira e mê lê, eu nem sei como interpretar seus olhos.
Viveu mil anos. E eu, engatinhando.
Sinto fome dela. Quero sua delicadeza e força e o cheiro do seu travesseiro em mim. E só por segundos, no escuro, que sejamos iguais.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

De outono a outono

Era como se estivesse vazia de alguma coisa da qual precisasse terrivelmente. Como quando se respira e os pulmões não enchem. Respirei voraz, rápida, faminta, esperando que isso suprisse minhas faltas.
Não sei se estava prestes a murchar ou dilacerar de dentro pra fora. Liguei para o primeiro número da agenda como quem liga para a ambulância; "me salvem ou vou explodir!"
Claustrofóbica de mim mesma, meu corpo não mais me continha. Precisava englobar o mundo, por isso expandi.
Não estava vazia. Estava cheia de ausência.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Era contador. Pediu a mão da mocinha filha, justamente, do dono do circo da cidade. Foi recusada. Esse tipo de gente não ama a vida, filha. Esse tipo de homem tem só dinheiro pra te dar.
Pois o contadorzinho virou trapezista e viveram felizes para sempre, pobrinhos.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Ciclo

Livros de biologia nos ensinam que comemos, vivemos, morremos, o solo absorve nossos nutrientes, nasce uma planta, outro ser vivo vem e a come, e vive, e morre.
Livros de biologia se encarregam disso, porque livros de poesia não o fazem (como deveriam.)
Nunca falam sobre quão poético e feliz é deitar um dia sobre o solo e ser devorada por ele, devagar, devagar... Ser uma parte, mesmo que pequena, da gigantesca pulsação estrondosa da vida. Se reciclar finalmente. Se reciclar, tudo que quisemos a vida toda, surpreendentemente acontece no final.
Tudo é cíclico, e como demoramos pra entender isso. Tanto que nem eu mesma, escrevendo, entendo. Um ciclo lindo, grande (gigante!), calmo, que leva um tempo arrastado como quem tem todo tempo do mundo.
Mundo?! Breve demais, igual tudo que conheço. Nunca serei hábil pra falar do ciclo do qual tanto me sinto parte, porque sou breve demais. E nunca poderei falar das imensas supernovas ou de galáxias porque simplesmente não as conheço.
E a maior das grandiosidades que conhecerei será ser abraçada, putrefata, pela terra na qual hoje piso descalça.
Devagar...