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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Veículos lentos na pista da direita

Já estavam cansados demais pra serem irônicos. Não aquela hora, não aquele dia, não fisicamente. Eles eram duas pessoas cansadas.
Quando eram jovens, juntos tinham um tipo de brilho. Uma combinação inusitada, um menino desempregado, uma cidade grande pequena demais, uma primavera, uma menina morena desajeitada. Agora eram dois adultos afetados.
Eles foram afetados! Perigosíssimo. A tragédia da normalidade, altamente contagiosa pela convivência. Uma vez ouvi falar de um homem que foi contagiado, e ainda tentamos nos recuperar.
Um a um, nós tentamos nos recuperar.
Nesses dois o brilho foi substituído por fundas olheiras. Quando a infecção estava no começo, ainda existia o humor ácido um contra o outro. Agora foram consumidos.
Havia amor? No fundo, no fundo,
não.
Era irreversível.

sábado, 25 de junho de 2011

pulsações da cidade - não coloque intensidade onde não há nada.

nasceu na terra
tudo que eu sou e tudo
ver você dormir
cresceu no sol, mas colheu na lua. quando a tua alma transbordou
você viu esse pássaro? porque ele está em todos os lugares
e tudo que fui. é mais que um nome ou um rosto. você não pode comprar a felicidade. roube-a
escrito de batom no vidro do espelho, corações de verdade não são quebrados. quer dizer que tudo que sou e que fui eu aprendi? eu sinto a sua falta todo santo dia.
não é triste? perguntou.
sem o verde morrem todas as cores.
a gente acostuma. Mon dessin ne représentait pas un chapeau, este é meu relatório sobre a importância.
opções?
and that's what kills you.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Não te acho arte.

Não acho. Não acho que você é luz nem que eu sentiria sua falta se você se metesse um dia na minha vida e decidisse ir embora. Não acho que te preciso e nem que preciso do seu jeito de achar defeito em tudo e acho que preciso cada vez menos da sua respiração.
Acho que você é tão controlado por fora mas passa muito tempo brigando com você mesmo por dentro.
Acho que alguém tinha que gritar com você, te fazer explodir, balançar essa paz tosca do caralho que você sempre tem contigo.
Eu NÃO sinto a sua falta.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

existia, porém.

Não sem pudor, ela existia. Existia sem jeito, com certa dificuldade, existir ardia. Existia, porém.
Às vezes ela tinha um sopro assim, quase que uma inspiração, mas logo passava, e ela voltava a ser nada.
Um dia ela acordou e as lágrimas da noite anterior já estavam secas. Pegou a arma do marido falecido e, por um segundo, parou de existir e viveu. E vivendo ela era inteira torpor. Vivendo, puxou o gatilho.
Nem mais vida e nem mais existência.
Alguns sentiram falta dela por algumas semanas, depois voltaram a só - sem gosto, sem vida, quase sem âmago - voltaram a só existir.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Era engraçado como ele tinha jeito com as palavras e mesmo assim as usava bem pouco. Acho que tudo ficava mais bonito quando saia da boca dele. Aliás todas as coisas ficavam mais bonitas quando se relacionavam com ele, de algum modo.
Não sei o que tinha esse guri. Era uma beleza além da aparência, além das covinhas.
Quando eu acordava ele com o cheiro de café da cozinha, e ele aparecia lá de cueca e cabelo bagunçado e eu dizia que ele acordava feio, não sei muito bem o que ele pensava. Sempre me dizia que era eu quem estava feia de blusão cinza e meias. Riamos.
Lembro das vezes que ele ficava vermelho quando era elogiado, ou talvez eu não soubesse elogiar.
A maior parte do tempo ficávamos dentro do apartamento branco e mofado, nunca sóbrios o suficiente pra eu lembrar o que fazíamos lá.
Foi assim que eu fui embora, também. Sem estar sóbria o suficiente pra lembrar porquê.