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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Era engraçado como ele tinha jeito com as palavras e mesmo assim as usava bem pouco. Acho que tudo ficava mais bonito quando saia da boca dele. Aliás todas as coisas ficavam mais bonitas quando se relacionavam com ele, de algum modo.
Não sei o que tinha esse guri. Era uma beleza além da aparência, além das covinhas.
Quando eu acordava ele com o cheiro de café da cozinha, e ele aparecia lá de cueca e cabelo bagunçado e eu dizia que ele acordava feio, não sei muito bem o que ele pensava. Sempre me dizia que era eu quem estava feia de blusão cinza e meias. Riamos.
Lembro das vezes que ele ficava vermelho quando era elogiado, ou talvez eu não soubesse elogiar.
A maior parte do tempo ficávamos dentro do apartamento branco e mofado, nunca sóbrios o suficiente pra eu lembrar o que fazíamos lá.
Foi assim que eu fui embora, também. Sem estar sóbria o suficiente pra lembrar porquê.

terça-feira, 7 de junho de 2011

                               eu sei que existem milhões de combinações de palavras pra descrever o que aconteceu aquela tarde, mas não me sinto capaz de encontrar nenhuma.

Era de tarde, quase escuro. Chovia desde manhã; e eu estava lá, parada, na porta de um teatro, esperando nem lembro o quê, no meio de um monte de vento e chuva e gente correndo. Fria, molhada, brava, de lábios sem cor que tremiam.
Algumas pessoas passaram, sem muita expressão, igual elas sempre são mesmo. Muitos nem olhavam pra mim. Eu pensava que dentro dos seus guarda chuvas e bem mais pra dentro das muitas roupas existiam milhões de histórias, medos, coisas pra fazer, viagens, cores, homens e mulheres inteiros que, pelo menos a grande maioria, eu nunca ia conhecer. Posso ter cruzado com um ou outro mais tarde, num dia de sol quem sabe. De qualquer maneira eu seria irreconhecível pra eles sem o cabelo no rosto e os lábios tremendo.
Depois de vários minutos exposta à uma potencial hipotermia e esperando o tal não-sei-o-quê, uma moça de cachinhos vermelhos molhados e com um nariz de palhaço saiu correndo do teatro, olhou pra mim meio de relance, e
sorriu.
Não que nunca tivessem sorrido pra mim.
Mas a maioria esmagadora das pessoas não ri pra uma menina molhada e mal humorada assim, sem esperar nada. A moça não riu pra uma máquina fotográfica, não riu pra dar oi pra algum conhecido, não riu pra ser simpática. Ela riu simples e puramente porque ela teve vontade de rir, porque ela tinha um nariz de palhaço e talvez por achar graça uma pessoinha lá, parada, nervosa, meio xingando sozinha a demora do não-sei-o-quê. Foi o primeiro e talvez o único sorriso sincero que já me deram. Parei de xingar. Sorri de volta. Quis um nariz de palhaço.
Quem eu estava esperando por longos minutos molhados chegou preparado pra uma crise histérica universal. Entrei devagar no carro e sentei sem bater a porta.
-Desculpa, desculpa, desculpa! Não queria demorar assim, juro, você tá ai toda branca de frio ó. Quer ir lá em casa pra se secar? Quer que eu ligue o ar quente? Quer me responder, caralho?
-Tô com frio.
-Eu sei.
-Sorriram pra mim.

domingo, 29 de maio de 2011

new place in somewhere

a primeira coisa da qual consigo me lembrar é de como é escuro o lugar, esse lugar novo. de como as pessoa exigem de você o que elas acham que conseguem ser, mas não conseguem.
A maioria olha, julga, mas não vê de fato. Acham que sabem e não sabem. Pensam entender.
Nunca entendem.
Lembrar é como olhar pra lente de um caleidoscópio, colorido, confuso, bonito, triste. Porque o tempo passa e eu ando não sentindo mais, ando assim, anestesiada.
É essa a paralisia sensitiva que eu quis por tanto tempo?
As vezes acho que sou como um planeta recém nascido, em carne viva. Mas vá, endurece. Com o tempo esfria.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

...e minhas mãos eram sempre cobertas por mangas de moletons compridos. Lembro que quando você buscava meus dedos nas mangas, os seus eram frios, e mesmo assim, mesmo assim eu queria pra sempre te ver brincando com as mãos nas minhas, entrelaçando dedos, tirando devagar meus anéis, tirando devagar meu moletom.
Um dia você falou que as outras pessoas olhavam pra gente e só comprendiam superficialmente.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Tristeza lapidada de Eduardo

Eduardo era daqueles que você olha e acha que ele deixou a alma em algum beco ou loja pequena e poerenta. Era todo composto, andava dançando compassadamente numa marchinha contínua e encantadora. Nunca o vi de cabelo arrumado, tampouco com roupas passadas e sempre com a mesma calça jeans quase rasgando e toda suja. Era o que sabíamos dele. Era só o que todos sabiam dele, aliás.
Mais tarde suporíamos que ele nem sempre teria sido assim, alheio à tudo. Que alguma coisa terrível ou maravilhosa passou e levou a alma dele. Que na verdade aquela marchinha compassada e encantadora era tristeza em sua forma lapidada.
Antes disso porém, eu só olhava. Num desses dias normais ele sentou do meu lado, mais por falta de lugar do que outra coisa, e olhou bem pras minhas mãos nervosas batucando o gesso da parede.
-Você é uma menina bem curiosa, sabe.
Quis perguntar por que, mas por algum motivo eu achei que já deveria saber.
E nunca mais vimos o Eduardo.