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segunda-feira, 11 de março de 2019

cabe uma pessoa na minha boca
e várias no meu corpo além de mim mesma
carrego pedaços que são pra sempre indigestos 
dependurados, anulando meu corpo de carne 
fazendo nascer meio a força uma outra criatura que se entende inteira mesmo que abjeta 
de diferentes matérias como o lixo e os bichos do oceano
diferentes texturas
diferentes pontos de fusão 
um desmonte pelas mãos qualificadas do mundo
precisas como mãos de um cirurgião sem dedos

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

decorar paredes engolir cacos inteiros esperando que se dissolvam em algum lugar de mim lavar muito as mãos desperdiçar horas encarar o ralo afogar a fome lembrar do que deveria ser o futuro 
abro a boca é medo encrustado nos dentes brilhando, faíscas púrpura nos dentes sorrindo, indomáveis dentes ossos tórax
pentear os cabelos pensar pensar

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

03/09/18 segunda 23h30
essa sou eu, com 22 anos. sem maquiagem, sem correção digital. aquilo ali atrás é uma cadeira de acumular bagunça. estou chapada. estou pensando sobre a eu de 19 anos. sinto que embruteci, tenho menos esperanças e expectativas. numa grande parte do tempo não gosto de mim, mas gosto de quem estou me tornando. esse ano decorei meu CPF. por dentro tenho sido agressiva. muitas coisas aconteceram essa ano e me sinto forte. estou no fim da faculdade. amo uma mulher de um jeito que nunca amei alguém antes. tenho sentido as coisas de um jeito estranho. me vejo mudar numa velocidade que as vezes não compreendo. sinto que meu cérebro envelheceu. pela primeira vez na vida, me preocupo com meu peso. me sinto estúpida por isso. ando confusa com o que vejo quando olho pra dentro. tenho boas (e poucas) amigas. tenho aprendido a admirar as pessoas de um jeito produtivo. essa sou eu, com 22 anos. parece, as vezes, que a pessoa que vou dormir nunca é a pessoa que acordo. está um pouco difícil escrever. a carta O Louco tem saído pra mim com frequência.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Eu deitaria contigo, dividindo um travesseiro
com uma luz que fosse apenas suficiente para saber os olhos abertos
apenas suficiente para ver o contorno das palavras da sua boca
e ouviria suas histórias por horas.
Eu tentaria te absorver com a pele
absorver seu cheiro, seu sotaque, o comprimento do seu cabelo e o seu sorriso lindo
pra continuar apaixonada quando você for embora.
E nesse dia eu aceitaria o modo como o tempo se comporta ao seu redor, a diluição das horas
efeito magnético de confundir relógios
para que acontecesse nossa despedida mais bonita
(não coloquei ponto final)

sábado, 28 de julho de 2018

Tocamos as vezes, uns nos outros, em uma parte nossa que é normalmente muito protegida. Essa parte macia e frágil como a carne de um caranguejo por baixo da casca.
Tocamos quando o concreto se desmancha e o tempo deixa de ser uma linha reta
e quando confiamos no mundo como uma criança confia em um adulto.
Andamos assim com nossa vulnerabilidade, esbarrando-se com ternura crua e delicada
e enquanto não houver medo, não vai doer.