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segunda-feira, 20 de março de 2017

Tira o casaco, te pedi achando que você obedeceria ao menos isso, ao menos o pedido óbvio de tirar o casaco molhado num dia frio, mas você não acata pedidos nem que sejam de amor. 
Desconfiei que você queria ficar molhada por estar com saudade do mar (o mar está longe e o nosso chão é duro).
Fica?
Você tirou do bolso um dos seus raros sins, e eu não soube o que fazer com a sua presença. Te ofereci todo tipo de coisas, comida, chá, quer que eu acenda um incenso, quer uma toalha, quer tirar o sutiã.
Não te contei, mas essa semana vi um comentário seu no facebook e senti ciúmes, era você falando alguma gracinha sobre casar com alguém.
Desculpa por sentir ciúmes. Eu prometo que vou ser desapegada e tranquila, daqui por diante. Prometo que vou achar graça nos flertes que você dá por aí. Prometo não querer saber sobre as outras pessoas com quem você fica.
Mas posso te pedir pra não casar ainda?
Posso te pedir pra hoje, só hoje, você casar comigo? Finge que nessa noite fria, de roupa molhada, de incenso aceso, nós casamos e precisamos estar em lua de mel agora, aqui na sala. Tira seu casaco, seu sutiã. Tira tudo que você quiser tirar. Não vou te deixar sentir frio. Te falo umas putarias, te mordo a boca fina, posso lamber cada canto da sua pele. 
E você negou porque não acata pedidos, nem que sejam de amor.

quinta-feira, 16 de março de 2017

um dia de lua em escorpião é fundo como um lago antigo.
a cabeça enche de água,
as poucas palavras que chegam na boca são náufragas e sinto vontade de me comunicar com beijos. 
as vezes faço isso. 
se eu tiver o que chorar, choro, pra deixar a água correr.
vejo o prateado de um peixe na superfície de mim. ele mergulha e me pergunto quanto espaço tenho em profundidade. 
(não quero resposta nenhuma). 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Essa semana quase morremos. Um caminhão furou o sinal vermelho e foi por tão pouco.
Tremi até a tarde.
Não me sinto capaz de morrer mas não sei o porquê.
Ou porque medo instintivo da morte ou porque a vida é boa.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

é difícil se equilibrar na latência do mundo.
nas coisas que quase acontecem o tempo todo. nas nuvens pretas que cobrem a cidade e não derramam. no momento antes de espirrar. na preparação do salto. no susto.
as vezes, no meio do dia, lembro de sentir aquele ponto nevrálgico da existência; a vida só acontece agora.
agora.
nem um segundo além desse segundo.
ando alguns momentos com essa consciência: sinto o chão acolher meus passos, agora, o ar deslizar para dentro de mim espontâneo, os líquidos que me preenchem, agora, o que meus ouvidos processam, muito nesse agora, as dores do meu corpo de agora.
existo agora delicada e forte.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Não te conheço.
Não te conheço e mesmo assim, te uso como material pra poesia. 
Imagino conversas nossas no chuveiro e as vezes acho que sinto seu cheiro quando dobro alguma esquina.
Não te conheço e não te amo (não te amo mais do que amo todas as coisas).
Não te conheço, te projeto, e espero que você perceba meu corpo aberto quando envio sinais telepáticos sutis. 
Quero mastigar sua pele
te tocar de todas as formas. 
Você não me conhece mas eu me pinto interessante - não sei não jogar
Chamo sua atenção e finjo que foi sem querer. Toco minha boca quando sei que você está olhando (me sinto estúpida)
funciona.
Não te conheço e nem quero, pra não estragar a fantasia que te criei.