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segunda-feira, 9 de março de 2015

palavras não são matéria

O dizer é algo que quando se toca, esvanece. O que foi dito deixa no ar um contorno de memória, que por ser só contorno, a mente preenche com as inverdades que quiser.
Palavras causam sensações e vão embora como se não fossem nada. Caem da boca sincera e tornam-se mentira em contato com o ar.
E ninguém se faz lembrar apenas por dizer coisas.
Não servem pra fincar nada, em lugar nenhum (em ninguém).
Minha mente borbulha de palavras que não posso dizer para não validá-las.
Mas talvez possa escrevê-las;
vai embora. vai embora. vai embora. vai embora. vai embora. eu não te acredito. eu não te acredito. vai embora.

sexta-feira, 6 de março de 2015

coisa pouca quase nada
escorre fluindo muito
quase nada
apaga
querência
quermesse
aquece
as poças d'agua
o sangue quentura
e quando que quis correr de você
e desses olhos pequenos lindos pretos
quero quase nada

segunda-feira, 2 de março de 2015

carta da saudade que um dia eu vou mandar

à tua pele branca que já me envolveu.
Não sei quem você é hoje. Talvez não saiba também quem foi. (está acontecendo uma coisa que acontecia no nosso tempo; as palavras perdem o sentido assim que saem da minha cabeça. Espero que você me entenda.)
Hoje penso -com saudade- na tua estabilidade que eu costumava repudiar. E nas suas incongruências. E em como você era (ou é, mais do que nunca) um muro intransponível. Me culpo.
Quis por tempo que as pessoas que somos se re-conhecessem. Hoje, deixo estar.
Mas sobretudo quero que saiba que apoio o teu caminho e teus amores. E, se quiser notícias minhas, resumindo os anos, sou feliz.

de mim, com carinho e saudades.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

gota;

ou você pinga ou você volta. não adianta ficar. ficando você sempre será um potencial, uma coisa que pode ser mas não é.
é confortável olhar o mundo de fora e ainda pertencer a fonte; mas não é real.
te aconselho que pingue. (pinga em mim e me encharca, com essa tua pequeneza de gota.)
a terra é seca mas ainda existem lagos. rios. mares. oceanos.
se faça correnteza e me arrasta, me arrasta molhado. me arraste, gota. pingue. me pingue. goteja em mim.
pequena que você é, componha uma coisa. faça parte. chova. poça. (possa)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

esvaziando às/as quartas

vi uma borboleta sendo sugada pelo carburador de um carro. e quis falar sobre como me sinto hoje.
seu fim não me causou nenhum ímpeto. eu bem que quis. me desculpa. me desculpa borboleta amarela.
assisti uma morte gritante mas o que me moveu foram algumas garrafas de cerveja. e o movimento foi pra onde sempre vai: dentro de mim.
sua morte amarela. a fumaça da qual seus restos agora fazem parte. a fragilidade da vida.
e contra isso
eu.
eu flutuante, eu que pergunta. eu que me escolhe.
mas que me perdoa.