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domingo, 2 de novembro de 2014

Nessa vida extrauterina que nunca pedi à deus,
desde quando posso me lembrar
meu ser-sentir é uma ressaca, um vaivém oceânico;
antes um puxar forte, impiedoso,
aí o sopro, abandonar, expelir
abrasivo, ruidoso

sábado, 1 de novembro de 2014

Não posso com seus olhos dançantes.
Não posso.
Não sou nada perto deles que nem me miraram mas me destruíram.
Não posso com você, menina, que tem um sei-lá-o-que que arranca poesia de qualquer boca, qualquer mão, qualquer lápis, qualquer teclado, qualquer violão. E todos caem pelos seus olhos dançantes. Todos sucumbem e acabam fazendo arte pra você. Todos que te conhecem e não te conhecem.
E a mim resta apequenar-me, até quase não existir.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Eu não queria voar

Sou demais o céu pra deixar o chão.
Quem voa nunca enxerga o céu, enxerga aqui, terra dura. Só posso saber que o céu é bonito porque o vejo de baixo.
Porque só podemos olhar lugares nos quais não estamos. Porque onde estamos está ocupado pelo nosso estar.
Deixo o ser-céu pros passarinhos e pras fadas, e aceito, feliz, ver-céu. Mesmo que não voe nunca, que tenho pés firmes que andam devagar e olhos bem abertos pra olhar pra cima.
E o céu é bonito demais, é bonito demais.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Agora eu entendo. É você me observando. É sua necessidade de renascer.
Eu não vou sucumbir, natureza. Eu ainda não morri.
Era do tipo que está sempre pronto pra morrer, se é que isso é um tipo. Tinha testamento e um bilhete de esclarecimentos finais desde os sete anos, que foi quando descobriu a morte. A roupa com a qual queria ser enterrado ficava eternamente pendurada, bem passada, paciente. Listava coisas do seu dia que podiam ajudar na autopsia. Um dia esqueceu um prato sujo no criado-mudo
e morreu.