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segunda-feira, 4 de março de 2013

Ciclo

Livros de biologia nos ensinam que comemos, vivemos, morremos, o solo absorve nossos nutrientes, nasce uma planta, outro ser vivo vem e a come, e vive, e morre.
Livros de biologia se encarregam disso, porque livros de poesia não o fazem (como deveriam.)
Nunca falam sobre quão poético e feliz é deitar um dia sobre o solo e ser devorada por ele, devagar, devagar... Ser uma parte, mesmo que pequena, da gigantesca pulsação estrondosa da vida. Se reciclar finalmente. Se reciclar, tudo que quisemos a vida toda, surpreendentemente acontece no final.
Tudo é cíclico, e como demoramos pra entender isso. Tanto que nem eu mesma, escrevendo, entendo. Um ciclo lindo, grande (gigante!), calmo, que leva um tempo arrastado como quem tem todo tempo do mundo.
Mundo?! Breve demais, igual tudo que conheço. Nunca serei hábil pra falar do ciclo do qual tanto me sinto parte, porque sou breve demais. E nunca poderei falar das imensas supernovas ou de galáxias porque simplesmente não as conheço.
E a maior das grandiosidades que conhecerei será ser abraçada, putrefata, pela terra na qual hoje piso descalça.
Devagar...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Não estavam mais casados um com o outro.
Estavam casados com a memória do que um dia foi, e com a esperança de que um dia voltasse a ser o que era.
Serem o que eram.
Se amavam-se, não sei. Mas amavam sobretudo um ao outro do passado, os namorados que foram. Nunca tiveram filhos, como planejaram na juventude.
Assim que cresceram mergulharam numa rotina estática de trabalho. Rotina... Palavra que juraram odiar, na saúde e na doença, até que a morte os separasse. Porém adotaram-na pra definir os seus dias. Assistiram os antigos planos de namorados lentamente afundarem na vida, real que era. Na vida real não existe espaço pra planos bonitos.
E permanecem juntos, definhando lado a lado, na saúde e na doença, até que a morte os separasse -enfim-, amém.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Talvez você volte como todas as outras vezes. Sei que dessa vez parece diferente, mas talvez não seja. Mesmo com a demora anormal.
Já não mantenho mais a porta trancada enquanto tomo banho, porque espero que você chegue e brinque de novo com o meu cabelo molhado. Deixo aberta, toda aberta. A casa inteira. Eu também.
"Eu permaneço seu."

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

De repente, toda minha atenção foi sua. Sem eu perceber você me deixou exposta, de coração vulnerável, te precisando e sentindo sua falta toda hora. Chegou sem fazer barulho ou alvoroço e, de repente, eu era sua. Não prometia nada, não cobrava nada, e mesmo assim conseguiu tudo de mim.
E te agradeço por isso.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Lembro sempre dos verões que costumávamos passar no teu carro. Com todas as janelas abertas que sopravam um vento morno, viajando de mar em mar. O sol nas coxas expostas (minhas e tuas), e óculos que não custaram mais de 10 reais. Lembro de sentar de biquíni molhado no banco de trás e você reclamar, porque ia estragar o banco, mas depois sentar comigo.
Lembro muito das sardas que apareciam no seu rosto, quando a gente passava o dia todo no sol. E de beijar suas costas quentes com os lábios frios e ficar com a boca salgada de mar.
Você era o mar.